domingo, 4 de março de 2012

DVD MICHEL LEME TRIO - NA MONTANHA

Bruno Tessele, Bruno Migotto e eu.


Amigos,

É com imenso prazer que eu anuncio que o DVD "MICHEL LEME TRIO - NA MONTANHA" está pronto e que no dia 22 de março de 2012 chega da fábrica a sua primeira tiragem de mil cópias.

A seguir, um histórico de todo o processo.


O PRINCÍPIO

Depois de gravar meu disco "5°", lançado em 2010 e esgotado no mesmo ano, passei a tocar apenas com o Bruno Migotto (baixo) e Bruno Tessele (bateria), pois fazia algum tempo que não tocava apenas em trio. Gosto muitíssimo desta formação, toquei muito assim desde que comecei a tocar standarts e meus temas próprios instrumentais. E, com o tempo, o som vai ficando mais solto e os temas vão ficando mais abertos a mudanças para o momento. Há uns 10 anos, eu compunha e firmavam-se convenções, pontes e tal que eram reproduzidas ao vivo, o que é legal, ok, mas hoje prefiro fazer coisas na hora, afinal de contas, o som que faço tem como foco principal a improvisação e realmente as coisas soam vivas quando acontecem na hora de verdade - e porque não improvisar, além dos solos, novas partes e pontes nos temas? Pois com esta formação em trio com "os Brunos" isso é possível.

Muitos caras acham que estarão "seguindo o chefe ou o mestre", assumindo que se, por exemplo, o guitarrista propõe novos caminhos é porque este está querendo "mandar" ou colocar-se como "líder". Às vezes pode ser. Só que, em outras oportunidades, não! Quando trata-se de um grupo que realmente constrói música coletivamente improvisando, temos o contrário de um ditador e seus "playbacks" ou "lacaios". Eu, pessoalmente, gosto de construir música na hora, e coletivamente, que é mais prazeroso ainda.

E, justamente, por haver confiança, bases que possibilitam cada um a realmente improvisar e um relaxamento neste trio - e também com alguns outros músicos que curtem uma conversa não combinada antes - é apenas uma questão de começar a tocar, ouvir o que está acontecendo e agir/reagir. Hoje, com a individualidade cada vez mais valorizada via massacre da ideologia dominante, isso é algo muito raro nessa música, mas, quando se junta pessoas que tocam com real espírito de colaboração, é algo maravilhoso.


UM MÊS DE PREPARATIVOS


Em setembro de 2011, eu reuni alguns temas que queria gravar com esse trio, aí fizemos apenas um ensaio na casa do Bruno Migotto. Eu havia fechado algumas datas em lugares onde ainda é possível tocar em São Paulo pra começarmos a conhecer os temas, tocar de cor e tomar liberdades - enfim, o mesmo processo de aprendizado de standarts. E foi o que fizemos.

Junto com a parte musical, me comuniquei com os companheiros de ECVU (Espaço Cultural Ventos Uivantes), cuja sede fica em São Francisco Xavier, núcleo da Associação Jatobá, da qual faço parte desde a fundação. Eu disse a eles que queria gravar um DVD na montanha (ainda não tinha o nome do DVD, mas olhando em retrospecto, já tinha...) e todos toparam. Contei também com o Flávio Tsutsumi que grava comigo desde 2008, e ele, através da MF Produções, entrou na barca também, pra filmar e captar o áudio.

O dia estava marcado: 08 de outubro de 2011, numa montanha bem alta em São Francisco Xavier (SP).


A GRAVAÇÂO

O dia marcado amanheceu ensolarado e começamos a passar o som na sala que foi preparada pelos amigos Fachini e Cinthia, com pinturas e tecidos com finalidade de cenário e acústica também, o que ajudou a sala a ficar muito bonita e com um som muito confortável pra gente. Antes, também foi confeccionado um painel chocante, aliás, "tocante", porque tem cordas e pode ser tocado - você ouvirá e verá em algum momento do DVD...

"DENTRO"

O que foi gravado nesta sala chamei de "parte 1: DENTRO" no DVD. Usamos 06 câmeras: uma pendurada em cima da bateria do Tessele, outra fixa em mim e as outras quatro pilotadas por Flávio Tsutsumi, Guta Bodick, Pedro Bodick e Roberto Fachini. Na parte de fora da sala, Cinthia Crelier e Flavio Castellan "Capi" começaram a pintar junto com o som - processo que se acompanha no DVD. As fotos, que estão nos menus do DVD, são de Juliana Crelier e Marcelo Burgos.

Essa parte do DVD começa com o tema "Diz Aí", uma composição minha de 2003 que entrou num disco do grupo Motaba (com Sandro Haick, Pepe Cisneros e Cuca Teixeira) que gravamos em algumas madrugadas, que é muito legal, mas que ainda não foi lançado - e nem tem previsão pra tal. "Diz Aí" foi um título dado pelo Sandro Haick numa 'brainstorm' das mais rápidas no estúdio dele, e o tema é um baião que eu sempre gostei e não tinha tido a oportunidade de gravar num disco meu. Como senti que combinava com essa formação e o Migotto já tinha tocado tempos atrás (tem até um video no youtube com o Digão na batera), apresentei pros caras e rolou. O tema dá um certo trabalho na guitarra, a melodia não é das mais simples, e apoiar com acordes nas horas certas faz com que seja preciso estudar a coisa como uma peça mesmo. Fizemos dois takes dessa: um primeiro mais lento e o segundo, que valeu, um pouco mais rápido.

A segunda música que gravamos é uma modesta homenagem minha ao fantástico pianista/compositor McCoy Tyner. Chama-se "El Tyner" - tem a partitura aqui no blog, dê um search lá em cima à esquerda se estiver afim. Dessa, se não me engano, gravamos dois takes. Acho que o primeiro foi interrompido, nem chegamos ao final. Aí, já valeu o que tocamos em seguida. Você vai notar que no começo eu puxo a intro e o Migotto faz algo que muda a direção das coisas, o que não é nada incomum nesse trio; coisas acontecem realmente na hora, seja gravando ou não. De fato, não existe um jeito de tocar "pra gravar", a continuidade é o que é levado em conta - tem alguns vídeos gravados depois deste DVD no youtube onde dá pra reparar nisso claramente.

O terceiro tema gravado da parte "DENTRO" foi "Indo a Santos", que compus pra tocar com o Glécio Nascimento (baixo) e Abner Paul (bateria) numa das edições do IB&T Festival na EM&T Santos, em maio de 2010. Essa nós gravamos em um take. O tema tem várias nuances "autoexplicadas", o que é muito gostoso para improvisar. Quando estávamos gravando dentro já havíamos levantado a possibilidade de gravar a segunda parte ao ar livre, porque o dia estava lindo, com o tempo aberto totalmente. Então, ao final de "Indo a Santos" começamos a desmontar tudo, fazendo a mudança para fora da sala, no cenário que seria no "campo de pouso" (parte cimentada onde ficou a batera), um gramado à beira de um precipício com um fundo privilegiado: montanhas ao longe e o céu. Chapante.

"FORA"

Tocar em meio à natureza é algo, no mínimo, diferente. Eu recomendo. Lembrando dessa experiência, que é emocionante, eu costumo dizer que é como se a natureza dissesse claramente "toque o que a música pede ou será ejetado". E, como estávamos literalmente à beira de um precipício, não havia outra opção...

Então, com o circo armado ao ar livre e o tempo mudando rapidamente - nuvens surgiam -, começamos a gravar rapidamente a "parte 2: FORA". Tínhamos os mesmos 04 câmeras mais uma fixa e os pintores mudaram um pouco de lugar também. Nesta parte, tocamos praticamente emendando uma música na outra - só parávamos pra perguntar se estava tudo ok com áudio e video. Tudo foi no primeiro take.

Essa parte abre com "Entrelinhas", que compus instantaneamente ao vivo com o Bruno Migotto e o Jônatas Sansão num bar de SP em março de 2011, e a qual, nesta gravação, começamos sem contagem alguma: eu apenas dei uma "guitarrada" pra baixo e entramos todos em algo que depois chegaria no tema. Esse foi um dos takes mais intensos desse tema até hoje. Estávamos claramente sob influência do ambiente chapante e mágico de uma montanha bem alta meio a numa área de preservação ambiental em São Francisco Xavier.

O segundo tema foi "Dominación", um rhythm-changes que nos possibilita várias liberdades harmônicas, o que o Migotto realmente aproveita, mudando de tom, invertendo baixos, mas sempre mantendo a forma AABA. As mudanças do baixo para mim são extremamente bem-vindas, principalmente quando o baixista tem bases para fazer isso. É algo que abre portais incríveis na música. Alguns baixistas sabem muito bem fazer isso, porque, mesmo fazendo as mudanças, ainda têm o prazer continuar ouvindo de verdade tudo o que acontece à sua volta. Aí tudo fica mais fácil.

O terceiro tema foi "Dito e Feito", que fiz em 2003 e foi gravado pela primeira vez no disco "7 Fontes" do meu amigo Edu Letti, faixa na qual ele tocou baixo, com Sandro Haick no piano e Alex Buck na bateria. Esse disco saiu em 2004, e a versão deste tema naquela oportunidade ficou bem legal, energética. Desta vez, para o DVD, eu quis gravar num andamento um pouco mais lento, o que contribuiu pra melodia ficar mais clara e rolar mais safadezas - sim, safadezas; daquelas boas, sabe?

O quarto tema gravado foi "Celso Childs' Blues", que não é na forma do blues de 12 compassos, mas que tem o espírito blueseiro e que também é um convite ao desconhecido e a mais safadezas também. Foi um take totalmente energético e diferente. No final, entramos num clima que, inexplicavelmente, deu perfeitamente certo com o fechamento do DVD.

Obviamente, estou só passando resumidamente pelas faixas e dando um histórico que não está no DVD - os detalhes e a música estão lá pra ser degustados.

Todos.


A ARTE

As pinturas feitas pela Cinthia e Capi são mostradas sendo feitas no DVD junto com a música, e estão, claro, na capa e contracapa. Na capa é interessante reparar em algo: pode ser um cara tocando guitarra, um cara tocando baixo ou mesmo um cara tocando bateria, e cada um vezes 3! O Migotto me alertou pra isso. E isso é simbólico: tem a ver com o espírito desse grupo, onde as coisas começam seja por quem for e são construídas pelos três, coletivamente. Para mim é, mais uma vez, uma feliz coincidência, algo inexplicável. E ficou muito, muito bonito.

Depois que o Fachini fotografou as pinturas e nos mandou por email, eu e o Flávio Tsutsumi (sim, ele de novo) começamos a fazer a arte. A exemplo do meu disco anterior, "5°", eu quis que as fontes fossem a minha letra. E foi o que fizemos - e que, particularmente, considero como a melhor opção desde que fiz pela primeira vez. Falando em minha letra, no DVD tem uma pasta com todas as partituras dos temas em PDF, manuscritos escaneados - com exceção da melodia de "Dito e feito", que foi feita em algum programa, mas as cifras ainda são escritas à mão.

Eis a capa:



APOIO CULTURAL

Para realizar algo que envolve 10 pessoas trabalhando, é sempre preciso unir forças para que a coisa aconteça da melhor forma possível.

E como eu, definitivamente, não quero seguir a tendência dominante de como produzir um trabalho de música instrumental - assim como os membros do ECVU tem por princípio promover atividades coletivas fora da lógica da mercadoria -, prefiro arriscar outros meios, usando a criatividade, que é privilégio destes meus queridos companheiros, e fazendo algo que tenha a ver com a minha realidade e com o que me dá prazer.

Ao buscar alternativas, desprezando conscientemente as tais "tendências" - como gravar no estúdio caro que é o "estúdio do momento"; convidar caras "famosos" pra participar; fazer a capa com o cara que faz capa pra todo mundo; masterizar com o cara que masteriza pra todo mundo etc., etc., etc. -, sinto, pessoalmente, que estamos fazendo algo que é vida, ao contrário do que seria ao submeter-nos às "adequações" reinantes. E isso proporcionou muito prazer e liberdade em cada etapa de produção. Pudemos trabalhar com calma, fazendo as escolhas de cada passo conscientemente. Além disso, a competência de todos os envolvidos mais o foco na coletividade foram fatores que agregaram muitíssimo a este trabalho. Então, a exemplo do que diz o sufi Inayat Khan em seu livro chamado Música "o que procuramos na música? É a vida", e com o que eu concordo, sinto que tomamos as decisões mais felizes.

Dentro desse espírito, as colaborações muitíssimo importantes vieram, viabilizando mais esta realização:

- Cassias, a guitarra acústica que usei;
- D'Addario, cordas que eu uso desde moleque; no DVD uso o modelo Chromes na medida .012 (com a primeira E .013 e a G desencapada .022);
- ECVU, com estadia, rangos, locação e trabalho dos queridos amigos associados;
- EM&T, onde trabalho com aulas e realizo eventos desde 2001;
- Espaço Sagrada Beleza, salão de beleza de minha digníssima esposa onde realizamos o projeto Sagrada Música desde janeiro de 2010;
- Fire Custom, marca da qual uso o pedalboard, fonte (que alimentou o flanger que rola em vários momentos e o "Guyatone Harmonic Distortion" no final) e o Booster que ficou o tempo todo ligado na "parte 2" deste DVD;
- MF Produções, na figura do amigo e excelente Flávio Tsutsumi, na captação do áudio, filmagem, edição, autoração, mixagem, masterização e arte;
- Rotstage, com meu inseparável amplificador modelo-assinatura Libra 100, totalmente valvulado;
- Tecniforte, cabos fantásticos dos quais uso os modelos Prata Pura, High Clear e cabo de caixa entre a cabeça e a caixa do Libra.


PARA ADQUIRIR

Se quiser adquirir o DVD, envie email para michel@michelleme.com
Ele stará disponível a partir de 22/3. Antes é possível reservar no mesmo email acima.

Abraços,
Michel

4 comentários:

Andre Goes disse...

Só pra constar: conheço o trabalho do Michel há muito tempo, desde as video-aulas até os cds (tenho todos, hehe). Fico muito feliz por vê-lo nesse nível de musicalidade impressionante. Não só pela forma de tocar, mas pela simplicidade do jeitão Michel Leme de ser. Parabéns cara! E pra não perder nenhuma obra sua, um DVD já é meu...rs! Abraços!

Michel disse...

Valeu, Andre!
Abração ae,
Michel

Caio Garrido disse...

fala Michel,parabens pelo trabalho!
tem algum trecho do DVD no youtube? abrs!

Michel disse...

Obrigado, Caio! Então, ainda não fizemos o teaser, correria. O DVD chega depois de amanhã, de acordo com a fábrica. Abraço!