quarta-feira, 28 de abril de 2010

Cosas

Pois é, amigos, ando apenas postando datas e novidades por aqui, num misto de falta de tempo e falta de acreditar em algo decente pra escrever que não seja o que a manipulação da burguesia nos impele - manipulação que, infelizmente, norteia muitas de nossas ações e pensamentos, já que está presente pesada e incessantemente desde que cada um de nós nasceu.

Mas, já que acordei cedo e tenho tempo, quero dizer que tenho feito sons com caras jovens e de mente aberta e que, principalmente pela mente aberta, permitem que a música aconteça - e também tem os músicos mais experientes, mas jovens em espírito, que propiciam a mesma coisa. Isso é algo que me anima e inspira muitíssimo.

É muito bom sair de casa sem nada programado em relação ao que se vai tocar. E isso relaciona-se com tudo: repertório, andamentos, tons e maneiras de tocar em geral. Tem muita gente que diz "esse é o andamento pra essa música", "esse é o tom certo para tal música" ou "é assim que se improvisa" e isso tudo é condicionamento. Já não chega a lista enorme de condicionamentos a que estamos sujeitos desde que nascemos? Toquemos as músicas em tons aos quais não estamos acostumados; toquemos uma balada num andamento mais rápido etc. É importante sair do condicionamento neste sentido e abrir a mente para novas possibilidades. A música é algo vivo, em constante mudança. O que você fez hoje e foi legal numa música pode ser que não fique bom amanhã, por exemplo.

De minha parte, venho fazendo um treino de desapego com meus próprios temas: não é porque são meus temas que eu farei da "minha visão" algo para condicionar (ou mesmo aprisionar) os caras que tocam comigo. Componho pra criar música sobre as formas desses temas e para, quando gravo meus discos, não ter que pagar direitos autorais caríssimos - e também acho mais instigante ver um CD só com composições inéditas. Desta forma, componho coisas simples (na maioria das vezes) e intuitivas - toco muito as músicas antes de apresentar para os companheiros que vão tocá-las, daí atesto se são intuitivas ou não. Assim, toco estes "meus" temas como toco 'standarts', ou seja, aprendendo-os progressivamente, tocando-os cada vez de um jeito e tentando captar o que é preciso tocar em cada momento. E a colaboração dos músicos que tocam comigo é essencial para que essa música soe sempre viva, feita na hora. Eles sempre trazem elementos que me acordam para outras possibilidades, e isto não tem preço.

Não concordo com o sonho de muitos jovens músicos que almejam ter um grupo pra ensaiar 10 horas por dia sob suas batutas. E depois querem chamar isso de "música livre" ou de nomes mais estúpidos - essa necessidade de rotular um tipo de música é a influência da dominação burguesa, ou seja, chega-se a um som ao qual logo impinge-se um rótulo para vender, para inserí-lo no "mercado" e transformando-o em mais um mero produto. E além do ideal de escravizar um grupo de pessoas sob o pretexto de realizar uma "visão musical", essa idéia é algo que engessa a música: ensaia-se coisas complexas até que elas sejam executadas com perfeição, só pra depois se perceber (ou nunca) que o que foi ensaiado ad nauseum sempre vai ser tocado exatamente igual! Isso é "música livre"?

Quando digo brincando que "ensaiar faz mal à saúde", de fato, não estou brincando. Pessoalmente sempre detestei ensaiar esse tipo de música, cujo principal objetivo é a criação no momento. Ao longo do tempo, percebi que estes dois motivos que seguem tornam o ensaio desnecessário, pelo menos para as formações com as quais venho tocando: 1) se você tem que aprender um tema, você estuda antes, sozinho, pra tocar decor e fazer música quando for tocar - ou seja, faça sua lição de casa! 2) ensaiar para combinar dinâmicas, climas, introduções e finais é algo que não cabe mais para mim. O músico que tem as bases para tocar e que está disposto a ouvir e a negociar tocando, sente o que deve fazer e o faz em prol do grupo, sempre. Quando eu chamo alguém para tocar comigo é porque confio no que essa pessoa faz; não preciso dizer nada a ela sobre como tocar qualquer coisa. Então, pra quê combinar estas coisinhas?

Enfim, é isso o que tenho para esta manhã.

Nos vemos nos sons por aí!
Abraços,
Michel

16 comentários:

Anônimo disse...

Olá Michel, blz? Cara, na verdade eu até entendo o q vc quer dizer nesse texto, mas como vc tem uma maneira meio radical de falar... vou te fazer uma pergunta: O Michel Leme de hoje faria um grupo como o umdoistrio, onde algumas músicas, mesmo sendo vicerais, tem muitas partes definidas?
Breve farei contato p adquirir o seu 5º.
Abrç.

Zezo Maltez

Michel disse...

Obrigado, Zezo.

Resposta para a pergunta: não.

Só não confundamos uma postura definida e exposta diretamente com radicalismo. Mas, de fato, hoje, nesse mundinho onde todos fazem "social" pra inserir-se, as poucas pessoas que se posicionam em relação a qualquer assunto são consideradas "radicais", não é?

Uso esse blog para uma franca troca de idéias também, por isso não enfeito o que quero dizer com artifícios amenizantes.

De fato, acho saudável o questionamento que você me faz sobre o tipo de som que fiz em 2002 confrontando-o com o que digo nesse post hoje. Só acho curioso você me perguntar algo pela razão de eu ter uma "maneira radical de falar".

Mas, está respondido.

Abração,
Michel

Abner Paul disse...

Fala Michel!!!

Esse tipo de questionamento que o Zezo levantou aí deve ser muito comum pra você né??

Falo isso pq conversando com outros músicos sobre o som que rola quando toco com você, e exatamente como você encara o som e tudo mais...(tudo isso que vc escreveu no post...), logo em seguida me questionam dessa maneira também dizendo coisas como..."É mas ele já fez isso ou aquilo lá não fez???"

E o que posso dizer é que cada vez venho aprendendo mais com você, no sentido que devemos ter a consiência do que é "arte" e do que é "trabalho". E que é uma questão de foco. Ok!!Estou fazendo isso para pagar minhas contas, mas em nenhum momento podemos confundir isso com música...é mais um trabalho isso sim!!!

O SOM mesmo vai muito além disso...então obrigado sempre por me fazer compartilhar das suas ideias e do seu som!!!!


Abração!!!
Abner

Michel disse...

Só tenho a agradecer pelo que você diz e pela abertura que você propicia para que a música aconteça, Abner.
Não tenho mérito nenhum em tudo isso, é uma idéia e ela está aí pra ser vivida.
Abração e muito mais som!
Michel

Thiago Alves disse...

Isso aí Michel! Como tbém disse o Abner, vc é um cara que me ensinou e ensina muita coisa sobre a verdadeira arte. É tudo muito simples, aprende-se o tema e toca. Queria mto levar esse espírito pra Reteté Big Band, mas uma banda com 16 integrantes é mais complicado. Mas uma coisa nós estamos aprendendo, cada ensaio que fazemos serve pra nos reunirmos como amigos e tocar mais juntos, no sentido de unidade sonora.

Valeu, Michel!

Abraço

Michel disse...

Valeu, Thiago.
O espírito é esse: tocar cada vez mais livre e em função do que realmente está acontecendo na hora. Pelo seu preparo musical você é um dos caras a que me refiro no texto, que permitem que o som aconteça.
No caso da Reteté, é claro que com 16 caras fica mais difícil esse lance de não ensaiar e tal - tanto é que tive o cuidado de especificar que esse método de não ensaiar vem rolando nas formações que venho tocando.
Mas a Reteté tem um puta som e os melhores solistas do gênero. O que é arranjo tem que soar como vocês imaginam mesmo, e aí tem que se encontrar, testar, conversar etc. Só que nos solos a interação na banda acontece de verdade, bem longe de solos de algumas bigbands que parecem que estão no arranjo só pra constar... Reteté RULES, meu chapa! Um puta abraço e muito som!
Michel

Anônimo disse...

Michel, depois que li seu artigo, senti algo: senti que te amo!

Felipe disse...

Michel, ler um texto como esse me faz feliz por ver que não estou tentando seguir um caminho errado... Um cara de um grupo "x" me falou uma vez que essa coisa que eu fazia de juntar com outros caras para tocar standarts poderia ser comparado a um relacionamento com uma prostituta... Não tinha compromisso algum e não levava a nada! Fiquei me sentindo um merda na hora, mas depois pensei com calma e vi que as TRANSAS me somaram muito... Abraço!!!

Michel disse...

Obrigado, Felipe.
De fato, esse cara do "grupo x" gostaria muitíssimo de poder tocar standarts, coisa que homens adultos que gostam de improvisar e evoluir musicalmente fazem.
O que vale é a experiência direta com a música, as tais "transas" que você diz.
O resto está dentro da máxima "os cães ladram e a caravana passa".
Abraço!
Michel

Michel disse...

Ao anônimo ou anônima que diz que me ama: o amor é um sentimento que quanto mais universal, mais construtivo e equânime se torna. Portanto, ame a todos, cada vez mais igualmente.
Abraço!
Michel

Fabio Cadore disse...

Fala Michel,

Gostei de ler esse post teu... realmente faz pensar bastante.

Creio que algumas questões específicas ligadas a dinâmica, ornamentos, etc... se adaptem melhor a formações grandes como big bands, ou mesmo formações de câmara com vários integrantes, como vc respondeu a um dos comentários aqui.

Mas nas formações menores, onde cada instrumento se torna auto suficiente para as texturas musicais ali compreendidas, ter uma mente aberta, boas idéias e transar o som, traz a música seu verdadeiro espírito.

Grande abraço.
Fabio Cadore

Michel disse...

Obrigado, Fabio.
Se todo mundo está afim de se ouvir e negociar, é só uma questão de começar a tocar, não é?
Abraço e muito som,
Michel

Keity disse...

"A idéia, e ela está aí pra ser vivida"

isso aí!!! quem ganha somos nós apreciadores eternos...
e a questão "homens adultos que gostam de improvisar e evoluir musicalmente".....RÁ....ainda bem que isso existe!!!
beijooo

Namaguideras disse...

Puts, me identifico muito com essa postura Michel!
Mas também acho válido o contraponto dentro deste contexto.
Fiz um curso livre com o Bob Wyatt e ele citou uma experiência que teve com Roscoe Mitchell e Art Ensemble of Chicago. Ele fez um workshop com os caras no anos 70 e disse que os caras ensaiavam todos os dias, 4 horas por dia. E são ícones no mundo da improvisação livre (é, não consegui evitar rótulos...rs*).
Pra resumir, acho legal esse lance solto, sem nada pré-determinado, com aquela 'aura' de jam. Mas acho legal também esse modelo do Art Ensemble: ensaios que na verdade são encontros que visam melhorar a comunicação musical, mas que continua existindo o inusitado, a composição em tempo real, sem rédeas.

Abraço.

Luiz Eduardo Galvão.

Pérola Fogaça disse...

Oi Michel ! Eu sempre gostei dessa idéia de ir deixando a musica acontecer naturalmente ....alias amo isso... li num dos comentarios que alguem foi tachado de se prostituir qdo toca livre assim , mas eu ja acho que portituiçao é ter que ficar se adequando ao mercado. Eu gosto de tudo o que é inusitado e doido , original , autentico , por isso concordo com o seu modo de fazer musica..uma certa vez eu cantava com um musico querido e vc tb foi tocar com ele , lembro que vc simplesmente chegou e acabou com o que ele tinha ensaiado até mudei melodia e tudo na hora de cantar , por mim tudo bem ia continuar pq adoro improvisos , mas o musico chefao olhou pra mim e puto da vida com vc me fez sinal de tipo , vamos parar ....depois conversamos rs rs foi engraçado eu nao liguei mto nao achei até que legal mas foi algo inusitado eu realmente nao esperava ...isso ja faz mto tempo mas vc ja era assim naquela época !
sucesso pra vc
quem sabe nos revemos!!
...musica livre ....amor e felicidade

Michel disse...

Obrigado, Keity!

Luiz Eduardo: obrigado pelo comentário. Os métodos estão aí, cada um utiliza o que for mais coerente com sua trajetória, não é? Abração.

Pérola! Que prazer reencontrar-te por aqui também. Vamos nos ver, sim! E obrigado por dividir conosco essa experiência.
Bjs,
Michel