quarta-feira, 9 de setembro de 2009

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE IMPROVISAÇÃO

Muito se fala sobre improvisação por aí e sinto que tudo o que não precisamos é de mais um texto ditando dogmas ou regras a respeito. O objetivo aqui é propor algumas práticas e expor algumas idéias acerca do assunto, sempre com base em experiências pessoais. Repetir o que outros escrevem ou falam sobre isso é fácil, principalmente com o recurso "copiar e colar" - sites de citações brotam por aí, por exemplo. Só que considero mais verdadeiro falar do que nós mesmos fazemos e colocamos em prática em nossas vidas e, particularmente, tenho muito prazer em conversar sobre estas experiências com os interessados.

Importante dizer que direciono este texto para quem está começando ou para quem não tem conceitos cristalizados a respeito do assunto.

Línguas musicais

A improvisação não está restrita a um gênero musical, ela está presente em muitos deles. Tem gente que acha que só quem toca jazz é que improvisa, mas isso é, obviamente, um erro. Um exemplo óbvio seria lembrar de Jimi Hendrix: em suas gravações ouve-se um improvisador que tinha como base a linguagem do blues e que, inclusive, acabou extrapolando esse limite. A improvisação está presente também em muitos concertos de "música clássica" onde há espaço para que o intérprete improvise, nas chamadas 'cadenzas' – Bach, Beethoven e Mozart, é fato notório, eram grandes improvisadores. Uma outra boa referência está na música indiana, na qual mais de 90% do que é tocado é improvisado.

Nestes exemplos (e em inúmeros outros) temos várias formas de expressão ou linguagens musicais. Elas variam dependendo da localização, da época, do estilo, etc. Para ilustrar o que estou dizendo, ouça o Concerto para Clarinete Solo de Igor Stravinsky e compare o vocabulário de frases com um improviso do pianista Oscar Peterson, por exemplo; é como se você ouvisse duas línguas diferentes sendo faladas; ambas belíssimas, mas diferentes.

Considero essencial o contato com essas várias "línguas" para quem traz em si o ímpeto da improvisação. Isso traz uma maior riqueza de elementos para quem gosta e quer improvisar. Já imaginou se mais guitarristas ouvissem e assimilassem peças para clarinete ou se mais músicos de heavy metal se interessassem por assimilar o que o saxofonista Sonny Rollins faz? Imagine ainda se mais bateristas pudessem cantar os temas de jazz para terem mais consciência das formas musicais; ou se mais pianistas ouvissem como os guitarristas harmonizam - e vice-versa... Provavelmente haveria mais riqueza e surpresas no que as pessoas tocam.

Só que essa tendência em abranger mais de uma língua musical é rara. Imagino que isso aconteça pela acomodação das pessoas em ouvir apenas o que lhes é familiar, sem procurar diferentes fontes de expressão musical ou artísticas de um modo geral. Existe também o vício de sempre rotular o que se faz para ser inserido num "estilo"; isso obviamente restringe o artista. Outra razão é algo que constato no ambiente de ensino de música, através dos alunos que vêm estudar comigo e trazem reclamações de cursos anteriores: os professores inibem o espírito de busca de seus alunos, com uma verdadeira avalanche de "isso não pode", "esta não é uma frase de jazz" ou, pior, "isso está errado"! Infelizmente, tem muita gente que, sob o pretexto de ensinar música, recebe dinheiro para travar e desestimular seus semelhantes, descarregando neles suas mazelas psicológicas...

Acredito que cada pessoa tem em si uma música (ou linguagem) particular, o que a torna universal. E a prática e a pesquisa incansáveis - somadas à experiência - é que trarão essa música pessoal à tona. Várias pessoas que ouço tocar por aí já tocam o que são de forma clara, desde o começo da carreira. Por outro lado, outros sabem muito sobre teoria mas não conseguem se expressar: tocam como se estivessem calculando tudo, imitam outros músicos de forma escandalosa e, pior, tocam sem prazer algum. Por isso considero importantíssimo criar cada vez mais oportunidades para que as pessoas possam viver a improvisação – e, importante: gravar o que se toca sempre que possível para ouvir depois é algo que pode despertar a consciência de forma surpreendente.

Bases

Para improvisar é necessário conhecer o assunto sobre o qual se vai "falar" - ou, no caso, tocar. Se o músico tem uma noção intuitiva de métrica (duração dos acordes numa forma musical) e um bom ouvido, já tem facilidade para a coisa. O ritmo e o senso melódico são indispensáveis, obviamente.

Tem muita gente que vem estudar comigo e não sabe improvisar em, por exemplo, dois acordes do mesmo tipo, mas em tons diferentes, como nesta sequência: C7M e Eb7M. Outra questão é a falta de ritmo: logo no começo do curso de guitarra peço para que acompanhem algo e nada acontece. Isso é fruto de uma prática equivocada, que faz com que o estudante se preocupe muitíssimo com técnica (a velha história de querer impressionar), conquistando apenas 'velocidade', mas uma velocidade burra, destituída de riqueza rítmica, melódica e harmônica. É o virtuosismo enganoso no qual se ouve muitas notas, porém em sequências premeditadas, primárias e em apenas um ou dois tons ...

Para se ter a base necessária para improvisar é preciso conhecer na prática: acordes, escalas, divisão rítmica e, principalmente, ter paciência, humildade e perseverança. Paciência, porque o tempo para melhorar em algo na música é bem mais lento do que esperamos; humildade, porque a soberba induz ao erro e à falta de espírito de equipe ao tocar; e a perseverança, para insistir na arte na qual se acredita nesse mundo onde 'fazer arte' é algo cada vez mais isolado da vida das pessoas, relegado a guetos e, enfim, praticamente proibido! Essa perseverança é decisiva para que o indivíduo não se impressione com a falta de reconhecimento e nem esmoreça diante das adversidades; ela nos possibilita continuar evoluindo e buscando alternativas para viver a arte de forma cada vez mais intensa e verdadeira.

Repertório

Conheço alguns caras que não sabem nem os nomes das escalas, mas que tocam maravilhosamente - digo isso sem nenhum exagero. E por que será que isso acontece?

Pelo que pude constatar, isso acontece por dois fatores básicos: experiência e repertório. Costumo dar o seguinte exemplo: se um músico conhece 50 músicas decor, vai improvisar, acompanhar e compor com uma profundidade "x". Mas se um músico conhece 500 músicas decor, vai improvisar, acompanhar e compor com uma profundidade "10x" - e assim por diante. Infelizmente temos poucos exemplos por aí para atestar isso, e a razão principal é o grande número de músicos que se perde no meio do caminho, abandonando a arte em troca de uma vida tediosa apenas em busca do "ganha-pão", renegando seu lado criativo e verdadeiramente artístico. E com a crescente importância dada a ter um diploma de uma faculdade de música - o que só vem provar a tendência materialista da sociedade, na qual TER vem sendo mais valorizado do que SER -, esta situação só tende a agravar-se.

Se vale aqui um conselho direto e específico, expanda seu repertório! E quando aprender uma música, tente tocá-la em outros tons e andamentos, isso vai prepará-lo melhor para muitas situações que acontecem no dia-a-dia de quem toca e fará com que você conheça cada música de uma maneira muito mais profunda. Costumo dizer para os alunos que, por exemplo, "Blue Bossa" (de Kenny Dorham) "está” em Cm; ou seja, ela não "é” em Cm... De fato, ela pode e deve ser tocada em qualquer tom! E isso vale para todas as músicas.

Realmente improvisar

Em primeiro lugar, gostaria de falar do tal "lick". Entenda-se "lick" como a frase feita, treinada antes, o chamado "clichê". Os clichês são os lugares-comuns de alguns estilos, mas também, verdade seja dita, nos dão uma idéia de como nos expressar dentro de algumas linguagens musicais. Saber as inflexões de uma determinada língua musical, as pronúncias, as "gírias", é importante e faz parte da base para começar a se expressar. Então, se você sentir urgência em transcrever algumas coisas que ouve, procure tocar os trechos ou peças (que você sente que possam fazê-lo evoluir) junto com as gravações, até conseguir tocar em uníssono. É a tal prática de imitar para depois criar... Ok, mas só não confunda estudar com improvisar! Improvisar é tudo menos forçar as frases estudadas a saírem no momento de tocar; isso é premeditação, o contrário de improvisação. E não dá certo mesmo, sempre soa frio e fora de contexto.

Um termo que considero realmente interessante é “improvisação composicional”. Quando penso nisso, me vem à mente a idéia de não se jogar nenhuma informação fora, mas, sim, aproveitar tudo o que está sendo tocado para construir música. E só com muita atenção, concentração e desprendimento do ego é possível estar em condições de compor algo realmente na hora.

Ao ouvir o que você e seus companheiros estão tocando com concentração, você vai ouvir as respostas em sua mente. E, quanto maior essa concentração, maiores as chances de tocar o que há de mais perfeito no momento. Vale lembrar que é necessário ter conhecimento da música que se está tocando para não se preocupar mais com elementos que são pré-requisitos, tais como a forma, os acordes ou a melodia. Tudo isso deve estar interiorizado para que você se concentre apenas na música do momento.

A tranquilidade é outro ponto importantíssimo no ato de improvisar. Se você está tranquilo, é capaz de se expressar com mais exatidão, encontrando mais facilmente as notas que sente que deve tocar no instrumento. O tempo também fica mais relaxado e em sintonia com o andamento que está sendo tocado - entendamos isso como "swing". Com tranquilidade, as idéias são assimiladas com mais clareza, ouve-se tudo o que está sendo tocado como quem testemunha a música que está acontecendo. Desta maneira, tem-se mais condições de tocar a coisa certa na hora certa, realmente fazendo parte do que que está sendo criado.

É como diz meu amigo e grande músico Arismar do Espírito Santo: "Feliz do Homem que improvisa!". Quem vive isso não troca por nada. Experiência própria.


Abraços a todos,
Michel Leme

18 comentários:

Wilson disse...

Muito bom Michel.
O principal motivo que me faz continuar minha aulas com o Edu (mais do que a cerva pós-didática), é que a aula é baseada totalmente em improviso, e sinto que cada vez que toco com a banda, saem frases mais interessantes.

Parabéns pelo belíssimo texto, como sempre.

Wilson Cachorrão

Gabi disse...

Oi Michel!!! Ótimos conselhos, thanks a lot!!!

bjs

Fred Lyra, músico disse...

tão difícil quanto improvisar verdadeiramente, e buscar esse caminho em meio ao que é mais usual...para o estudante a pressão por seguir o caminho da falsidade é enorme, é outra luta. Muito difícil e ingrata. A luta por melhorar e tornar a performance musical mais espontanea e verdadeira, ao contrario, é muito grata e recompensadora. São dois conflitos em que nós estudantes nos encontramos no dia a dia. Abraço e obrigado!

Luis Delcides R Silva disse...

Sempre gostei de improvisar. Ao ler um trecho de seu texto onde vc se refere aos professores que só querem cumprir o "programa pedagógico institucional", lembrei de um dos professores do Conservatório Dramático onde ele marcava prática de conjunto para aprender a ouvir melhor o outro instrumento. Mas o professor seguinte "cortou o barato" e tive que tocar Bach,Chopin, que são maravilhosos! Mas queria aprender mais a ouvir, pereceber o que o outro toca, melhorar o ouvido. Isso foi interrompido. Ainda toco, mas as "gig's" onde participo não há músicos confiáveis onde eu posso improvisar com liberdade.

Rafael Nery disse...

Excelente texto michel. Acabei de ler a matéria toda, acho que se todo profissional de música pensasse desta maneira, o ensino musical seria muito diferenciado aqui no Brasil!
Abraço

gasparjulio disse...

é isso mesmo os professores querem ensinar técnicas para impressionar os alunos e ensinam umas cinco escalas já pensam que um grande guitarrista e semprem dizem que compor é para outra pessoa não vc
abraço

Michel disse...

Obrigado pelos comentários, amigos!
Abração e muito som,
Michel

Driko disse...

Michel, o texto é tão foda que dá pra ler acompanhado de um bom bourbon ouvindo um BB King heehehe!
Demais cara, você sempre conversa comigo sobre todos estes fatores...
Muito Bom mesmo!!
Abraçãoo!!

studio guitar disse...

Sempre imaginei que deveria ser assim, música não é algo mecânico e sem vida, ela nasce de experiências, de tudo que nos cerca.
E improvisar é descrever musicalmente situações que nos cercam todos os dias, a teoria é o meio de organizar tudo isso de forma mais clara possível.
Tenho tentado compartilhado e aprendido isso com meus alunos. Abração, excelente blog já era seu fã, pois gosto muito da linguagem musical usada no jazz, além de músico extraordinário, também ótimo escritor (rsrsr) valeu!!!!!!!

Michel disse...

Obrigado, Adriano e Studio!
Abração e muito som!!!!!!
Michel

livio disse...

Ótimo texto Michel!! Adorei quando vc falou sobre ver,ouvir, sentir o outro instrumento.Acho q um dos piores erros de músicos e principalmente guitarristas é esse ,não está preocupado com o parceiro ao lado seja o baixista,baterista.!VC pode tocar numa velocidade impressionante, ter conhecimento das escalas, mas se não ouvir os companheiros, vc não vai desenvolver uma boa música e não vai agradar quem está ali pra ouví-lo pois uma banda é uma equipe e precisa funcionar junta!!
abço!

Michel disse...

Valeu, Livio!
Abraço e muito som,
Michel

Artur disse...

Grande Michel... como sempre ótimos textos, com conteúdo mexendo na ferida de quem tem por objetivo enriquecer as custas das músicas dos outros! Comércio desenfreado está acabando com o verdadeiro sentido da música. A improvisação é o coração da coisa, "saber fazer música"! Poder complementar algo que está sendo tocado na hora sem fugir o sentido da composição original. Parabéns mais uma vez e obrigado por compartilhar seu pensamento conosco.

Abraços

Artur CWB/PR

Michel disse...

Valeu mesmo, Artur!
Abração e muito som,
Michel

Namaguideras disse...

Parabéns pelo texto, Michel!
Expressou muito bem situações e apontou caminhos.
Sou guitarrista também.
Estou vivendo para a música há uns 6 anos e a cada dia fica mais claro o quanto a busca é infinita.
E a tensão que existe no improviso é o reflexo máximo dessa busca.
A improvisação é o risco máximo, a hora que talvez você soe ridículo, desagradável.
Mas é bem melhor ser verdadeiramente 'deságradavel' do que hipócritamente 'agradável', né não?

Abraço.

Luiz E.

Michel disse...

Obrigado, Luiz!
Abração e muito som,
Michel

Igor França disse...

Excelente, Michel.
Te conhecia através de um guitarrista, o qual eu tocava em uma banda há alguns anos. Legal saber que tuas idéias batem com o que eu penso sobre um "complexo" tema que é a improvisação e a forma como a abordamos.

abraço !

Michel disse...

Muito obrigado, Igor!
Abração e muito som,
Michel