domingo, 23 de março de 2008

O PEQUENO-PODER E OS CADÁVERES AMBULANTES

Relevância, na sociedade materialista de hoje, é definida pela quantidade de lucro que algo ou alguém gera e pelo seu nível de exposição na mídia. A ordem desses dois fatores não importa, já que uma coisa vai levar à outra - basta estar 'inserido'.

Isso quer dizer que, sob este ponto de vista infame, na imprensa dita musical as pessoas vazias e desprovidas de qualquer talento podem ter muito mais relevância (e conseqüente exposição) que artistas de fato. Isso, óbvia e infelizmente, é o que mais se vê por aí.

Um dos principais problemas da área cultural de jornais, revistas semanais, TVs e alguns sites que atingem um público maior é que os jornalistas responsáveis por publicar agendas e resenhas sobre CDs e shows não saem em busca de pauta. Todo esse material simplesmente cai no colo deles, aos montes. Então, acomodados e com egos cada vez mais inflados, eles se travestem do mesmo "pequeno-poder" dos porteiros de boate em relação às "suas" agendas culturais: eles decidem quem entra ou não!

Mas será que a base dessa decisão é justa, ou mesmo limpa? Pergunto isso porque, se o assunto fosse realmente música, provavelmente as seções de shows das agendas culturais que vemos por aí seriam bem diferentes. A verdadeira cena musical não corresponde apenas aos 'grandes shows' para mais de cinco mil pessoas ou ao que acontece apenas nos lugares da moda. A música acontece também em lugares para apenas cinqüenta pessoas, por exemplo (e eu me arrisco em dizer que acontece muito mais nesses ambientes do que nas grandes produções, onde a espontaneidade é um mero truque de cartas marcadas), e isso não é relevante?

Sob o ponto de vista musical/artístico, é relevante sim, com certeza. Já presenciei maravilhas acontecendo nos bares por aí, muitas e muitas vezes - seja música instrumental ou cantada. Posso testemunhar também que muitas pessoas que estavam presentes em várias noites nas quais toquei (eventos invariavelmente desprezados pela mídia, diga-se) fizeram e fazem questão de me procurar pra comentar, mesmo semanas (ou anos) depois! E essas pessoas voltam nos próximos shows, compram CDs, etc. Isso é algo que vai muito além de ser relevante ou não para esses veículos, é algo de verdade.

Então, porque este tipo de arte deve ficar escondida, restrita a guetos? Porque isto vem sendo proibido de chegar ao grande público - mesmo com os assessores dos artistas e os bares (e pequenas casas de shows) mandando agenda para estes veículos? Onde está a tal independência jornalística na hora de divulgar, na mesma agenda (ou numa mesma cobertura), um evento para dez mil pessoas e, na mesma página, um outro pra quarenta pessoas? Ou mesmo o evento de um artista contratado de uma corporação multinacional e o de um artista independente? Enfim, onde acaba o jornalismo e onde começa o comércio?

A posição de jornalista seria reservada para aqueles que têm como objetivo informar, levar o que realmente acontece a público, listar as opções, etc. Mas isso não é o que vemos nessas agendas ou guias culturais. É o 'mais do mesmo' a cada publicação e pronto! Talvez isso ocorra por mero capricho, talvez por incompetência, por lobby, não se sabe... Mas só por barrar a divulgação de manifestações artísticas por meio da omissão, já se está privilegiando as imbecilidades que as corporações precisam desovar de seus estoques. E só está livre de ser "barrado", obviamente, quem paga (bem caro) por anúncios nesses veículos ou quem está "inserido" na Indústria Cultural - como os contratados de gravadoras multinacionais, "celebridades", etc.

Como as corporações são sempre os anunciantes mais fortes, a independência jornalística se reduz a mera bravata, expelida pelos cadáveres que ocupam o lugar de jornalistas sérios e aceita pelo verdadeiro exército dos ingênuos 'consumidores que acreditam pensar'. "Eu assino a revista 'x'. Estou sabendo das coisas!" - dizem com orgulho. Mal sabem...

Quanto ao pseudo-jornalista, não consigo achar outro adjetivo para alguém que arrota ser conhecedor de Wagner, mas que, efetivamente, só ajuda a vender Fergie e congêneres... É um cadáver! E ao invés de estar enterrado, é um cadáver ambulante, que serve como mais um hospedeiro para os vermes do lobby e da conseqüente perpetuação da mediocridade generalizada imposta pela Indústria Cultural.

Se meu testemunho vale algo, em quatorze anos tocando música instrumental por aí, conto nos dedos as vezes em que saiu algo referente ao meu trabalho nos chamados grandes veículos da mídia. E tem muita, muita gente sendo excluída por aí também, obviamente. Estou querendo holofotes? Não, apenas igualdade. Quero apenas que a agenda que esses caras recebem seja publicada. E, se possível, que isto seja feito de forma justa, com base em critérios musicais e artísticos.

O que fazer, então?

Em primeiro lugar, boicote! Eu, por exemplo, não compro e não assino nenhum desses veículos. Acho que, além de terem essa política abjeta de privilegiar aos que estão inseridos na Indústria Cultural, eles são uns vendidos de uma forma geral - é só reparar no destaque que dão a novelas e reality-shows, por exemplo... É patético. Esses espaços caríssimos poderiam ser usados pra divulgar cultura de verdade, mas não são - e não é por falta de pauta. Vamos parar de financiar quem nos despreza.

Em segundo lugar, procurar veículos realmente independentes. Continuo mandando minhas datas de shows para sites que, apesar dos modestos recursos, sempre as publicam, e de forma pontual. Além disso, eles exibem uma agenda de shows realmente democrática, que serviria de exemplo de prática jornalística para os chamados 'grandes veículos'.

E, enquanto esse estado de coisas permanece, quero desejar aos "jornalistas-cadáveres" um bom salário (e "vantagens adicionais") nesse mês e que continuem sendo adequados à Indústria Cultural. Vocês se merecem.

Michel Leme

Correção gramatical e contra-argumentação: Bruno Bacchi.

11 comentários:

Camila disse...

Verdade...
mas eu acho que o buraco disso tudo fica mais embaixo...

quando o jornalista publica só o que acha conveniente acredito estar ele subordinado as valores artísticos da sociedade, que por sua vez tem sua opinião, não feita expontâneamente, mas pelos veículos que dominam a opinião pública. Gravadoras, premiações etc... O jornalista antes de ser jornalista é leitor... acaba sendo um copista do copista, do copista.. etc etc. Faculdade pra que né? haUAHuahUa
E como este vive de quem lê não pode se dar ao luxo de ir contra a maré...
Ou seja, o problema é do jornalista, mas é muito mais da educação... pelo ou menos eu acho!

Bjooo... parabens pela publicação!!

Michel disse...

Obrigado por postar, Camila!

Acredito que o problema é o profissional se vender, por pura falta de princípios. No caso dos jornalistas, penso que quando existe a prática anti-ética a causa é o puro egoísmo mesmo. O mau profissional serve a quem tem a grana e a influência, desprezando qualquer manifestação de arte que não tenha esse tipo de apoio.

Não concordo quando você diz que o jornalista está subordinado aos "valores artísticos da sociedade". O mau jornalista está subordinado ao lobby e está ligado ao tráfico de influência. Ele se aproveita da posição de "formador de opinião" para favorecer quem tem o poder na Indústria Cultural.

Abraço,
Michel

Alexandre Gentil disse...

Michel, parabéns pelo blog.

O que você quer dizer com "lobby"?

Creio que isso tem haver com um pouco da cultura do brasileiro, de querer ser malandro - o que importa sou eu, nem que tenha que ferrar o outro. É falta de ética, e não somente na área do Jornalismo.

Também existe a falta de auto-valorização. Hoje se você não aceita um trabalho porque acha que o salário não é digno, por conta de toda sua experiência, toda sua bagagem, o empregador acha outra pessoa fácil, busca alguém que passa necessidade e que não tá nem aí pra ética, o único principio que ele tem é encher a barriga e ter alimento em casa.

É um grande problema...

Michel disse...

Obrigado, Alexandre.

Respondendo à sua pergunta:

Onde escrevo 'lobby' quero dizer manipulação da informação com a finalidade de expor apenas o que se pretende vender.

Abraço,
Michel

Luiz disse...

A ética se tornou relativa, e a imposição de gostos e modismos muzkais está estampada. Parece que as gravadoras agora querem uma parte dos shows dos artistas. Talvez isto explique so encontrarmos nas agendas de shows, quase q exclusicamente mega-produçoes, nada de shows de muzk.No final vão estar chamando vc de bravateiro de plantão por estar levantando e lutando pelo certo e por sua carreira muzkal.
Excelente postagem.

Filipe Rodrigues disse...

Michel Leme, é com muito prazer que venho lhe mostrar resposta aos seus esforços aqui presentes. Tenho lido há um tempo (pouco, na verdade) seus posts em seu blog, e devo dizer que eu estou realmente surpreso em ver uma pessoa tão inteligente agindo assim, tão abertamente com os próximos.
Concordo com você plenamente que devemos ser sinceros, e não educados.

Achei seu post simplesmente genial, você disse coisas que a maioria das pessoas, infeliz e obviamente, não enxerga. Acho que as fundações da corporação vem mudando drasticamente junto com os 'avanços' da globalização, que só são avanços para aqueles que podem pagar por eles, e se acham importantes o suficiente para tê-los.
Uma coisa que você disse nas entrelinhas é sobre como os ditos jornalistas colocam mais sobre seus gostos pessoais, suas crenças, acima dos valores forjados pela sociedade, a NOSSA sociedade. Infelizmente esse processo vai continuar seguindo lado a lado com outro processo : a 'inflação' de lucros. Quanto mais você puder me dar de lucro, mais alienado eu deixo você, e olha só, você nem sabe que eu estou fazendo isso! Não é maravilhoso?

As pessoas deveriam parar de pensar no que é eficiente, e sim pensar no que é eficaz. Fico feliz de existirem pessoas como você que estão dispostas à fazer a diferença! Mesmo que seja pouca agora, lembre-se : TODOS começam por baixo. Só assim chegaremos ao topo!

Um grande abraço,
Filipe.

Michel disse...

Obrigado, Filipe e Luiz!

Só um adendo, Filipe. Entendo quando você diz "todos começam por baixo". Mas, aí cabe o questionamento: quem está por baixo? Quem quer fazer o certo ou os canalhas? Para mim quem está por baixo são os mancomunados com o sistema, com as corporações. Estes são os que serão apagados da história. Estes - embora possam ter e exibir grana, poder, influência e outras coisas, que sob o ponto de vista material significa estar por cima - estão, na verdade, por baixo. Essa discussão nesse modesto blog, por exemplo, é algo que considero muito nobre. Essa é a minha opinião.

Fiquemos em contato.
Abraço,
Michel

Filipe Rodrigues disse...

Sim sim, e é exatamente nessas horas que precisamos ver as coisas como elas são de verdade, a essência, e não pela aparência. Nesse ponto ambos sabemos o que é realmente estar em cima e estar em baixo, por mais que a sociedade não veja assim.
Mas o que eu realmente quis dizer com 'todos começam por baixo' é que tanto eu como você começamos de um certo ponto, nós tivemos um ponto de partida, e estamos em constante evolução e processo de transformação, enquanto os cabrestos das corporações da mídia e da globalização tem uma visão falsa de toda essa verdade.

Um grande abraço,
Filipe

Michel disse...

Obrigado, Filipe!
Abraço,
Michel

Anônimo disse...

olá michel;
olha, assim como você eu tambem não aguento mais ver e ouvir tanta porcaria na televisão e no radio.porque será que a cada dia que passa vemos mais pessoas sem talento na televisão,na musica e na arte de um modo geral?pessoas vazias,inuteis,pobres de espirito que não acressentam nada em nossa vida!precisamos de artistas e musicos de bom gosto e com talento de verdade como você.tenho fé que ainda vamos mudar esse quadro.PARABÉNS E UM GRANDE ABRAÇO!!

Michel disse...

Muito obrigado, Anônimo!!
Fique em contato, abraço.
Michel