Depois, uns sete anos se passaram e, quando eu dava aulas na galeria do rock, o meu amigo guitarrista Rogério Scarton me ligou dizendo que estava indo pro Grupo Paiol (outra banda de baile) e me passou o telefone do Marcos (dono da Santo Angellus) pra eu agendar um teste. Fiz o teste, tirei todo o repertório e entrei na banda em quatro dias, em 1992.
Viajávamos pelo interior de São Paulo, além de tocar em vários clubes aqui na cidade, e foi uma bela escola de vida e de música - fiz amigos ali que são pra vida inteira. Muita gente não sabe o que é tocar num baile... Você tocava uma grande variedade de ritmos em aproximadamente quatro horas de som - fora os vocais e algumas roubadas que apareciam na hora, tipo acompanhar alguém numa música que você nunca havia tocado na vida, etc.. Hoje em dia, esse tipo de trabalho praticamente não existe mais e as pessoas estão aprendendo música apenas na escola. Por isso, nas aulas, tento passar tudo da forma mais musical possível, já que, além de ouvir CDs bons, outras fontes de aprendizado real - como tocar em bares, bailes, etc. - vêm se tornando cada vez mais raras.
Saí da Santo Angellus como diretor musical em 1996 - e sou muito agradecido pela experiência. Saí porque, além do repertório ter piorado bastante - uma banda de baile toca o que toca no rádio, e, em 1996, já tínhamos duas seleções de 'pagode' e duas de 'axé'! Então você imagina... -, senti que já tinha esgotado meu tempo nos bailes. Estava afim de outros desafios e de, principalmente, tocar música instrumental.
Em 1995, eu já trabalhava no Souza Lima. Fiz um workshop no auditório em maio no evento Guitar Mix pra lançar umas vídeo-aulas que fiz com a editora Hélio Cortez Music (editora cujo proprietário Ricardo Cortez resolveu não me pagar mais há uns três anos pelo que me deve em relação às vendas das video-aulas e do livro "150 frases") e fui chamado pelo Mario, que é o diretor, pra dar aulas. Logo depois de mim, entrou o David Richards, um saxofonista americano que estava morando no Brasil há alguns anos, e eu gostava muito de ouví-lo no Sanja Jazz Bar.
O Sanja era, para mim, um lugar sagrado. Um dos meus maiores sonhos na época era poder tocar lá. Me lembro que uma vez cheguei a dar uma canja num show do Jonnas Sant'Anna, toquei "Billie's Bounce", mas ainda não me sentia preparado.
Vale comentar que uma coisa que nunca fiz - e que muita gente desavisada faz hoje - é pedir pra dar canja. Sempre esperei ser chamado. Considero pedir pra dar canja algo como "colocar o carro na frente dos bois".
Em 1996, eu estava na sala do Joe tocando uns standarts e o David chegou e tocou "Ana Maria" com a gente. Ele curtiu o que eu estava fazendo e me chamou pra dar uma canja com o grupo dele no bar Charles Edward, no Itaim.
Lá fui eu com minha Fender Stratocaster 1973 com cordas .010 e toda cheia de adesivos...
A banda do David na época era: Marcelo Gomes na guitarra, Luizão Cavalcanti no baixo e Marcos Costa na bateria. Chegado o momento da canja, o tema escolhido foi "So What". Tocamos, eu estava um pouco nervoso, mas rolou.
Logo depois, o David me convidou pra entrar na banda e fazer temas próprios. Junto comigo, entrou a pianista Mika Mori.
Eu e o David nos tornamos parceiros de composição e tocávamos as músicas nas noites de terça-feira no Sanja. Chegamos a gravar um CD, com a nova banda, em 1997: Cuca Teixeira, Sandro Haick e Pepe Rodrigues. Tem coisas muito legais nesse CD, mas acho que nunca será lançado. Nessa épóca também fui chamado pelo Sandro pra gravar um solo no CD "Mr. Motaba" (esse foi lançado, e está esgotado) - minha primeira gravação num CD de música instrumental; participei da faixa "Speed Racer" e, algum tempo depois, fui convidado a entrar no grupo também. Logo depois de gravarmos o CD do David, começamos a tocar apenas standarts no Sanja. Essa fase foi importantíssima pra mim.
Por influência do Sandro e do Cuca, comecei a ouvir direto o Miles Davis Quintet - com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams - e nós três começamos a tomar certas liberdades no som - mas sempre na forma! Além disso, o repertório ia crescendo a cada semana, principalmente quando o Wilson Teixeira ia como substituto do David. Nessa época, eu comecei a parar de tocar 'licks' e a me preocupar em deixar a parte rítmica mais relaxada, ou seja, 'correr' ou 'afobar' menos. E comecei a ouvir mais seriamente e a sacar a liberdade musical de Sonny Rolins, Thelonious Monk, Coltrane, etc. Lembro que o Sandro uma vez me disse "Pará de tocar licks. Você tem uma puta técnica, vai passar por uma fase negra de 'nem tocar licks e nem improvisar', mas vai conseguir". Era o que eu sentia. E foi o que começou a rolar.
Me lembro que, numa noite, estávamos tocando "Donna Lee" e , por alguns segundos, senti que eu tocava justamente o que a música me 'mandava' tocar, era perfeito. Senti o que realmente significava 'servir à música' por alguns segundos e pensei "quero tocar assim minha vida inteira!". A luta é essa: fazer aqueles poucos segundos de êxtase se expandirem cada vez mais.
Tocamos no Sanja de 1996 a 1999 - todas as terças. Inclusive, fechamos o bar... Gravamos o CD do Mr. Motaba Ao Vivo (que um dia será lançado)- com participações do Arismar do Espírito Santo, Daniel D'Alcântara, Wilson Teixeira e Armando Marçal - e foi um dos últimos sons que rolaram ali.

Sandro, Cuca, eu, David e Pepe (1997).