sábado, 28 de julho de 2007

Influências (parte IV)

Toquei na banda de baile Santo Angellus (nomes que surgiam na década de 70 e 80) de 1992 a 1996. Meu irmão havia tocado lá a partir de 1985, e ficou alguns anos. Me lembro que eu ia assití-los e ficava doido pra tocar. Minha história com essa banda começou quando eu tinha uns treze ou quatorze anos. Fiz o teste, fiz tudo certinho mas, como eu era muito moleque (não tinha idade suficiente pra viajar com a banda), não rolou. Numa outra oportunidade (depois de um ou dois anos), tirei o repertório todo pra ser o baixista. Além disso decorei vários vocais, e tudo em três dias. O baixista estava de saída e era a minha grande chance de começar a tocar profissionalmente - eu estava eufórico, nem dormia direito. Bem, depois de tirar tudo, os caras foram na casa dos meus avós - onde eu tirei as músicas - pra me darem a triste notícia que o baixista, o Otto, iria voltar pra banda - já que o outro trabalho não havia rolado pra ele. Fiquei muito decepcionado, quase chorei na reunião... Mas compreendi a situação toda e ficou tudo certo.

Depois, uns sete anos se passaram e, quando eu dava aulas na galeria do rock, o meu amigo guitarrista Rogério Scarton me ligou dizendo que estava indo pro Grupo Paiol (outra banda de baile) e me passou o telefone do Marcos (dono da Santo Angellus) pra eu agendar um teste. Fiz o teste, tirei todo o repertório e entrei na banda em quatro dias, em 1992.

Viajávamos pelo interior de São Paulo, além de tocar em vários clubes aqui na cidade, e foi uma bela escola de vida e de música - fiz amigos ali que são pra vida inteira. Muita gente não sabe o que é tocar num baile... Você tocava uma grande variedade de ritmos em aproximadamente quatro horas de som - fora os vocais e algumas roubadas que apareciam na hora, tipo acompanhar alguém numa música que você nunca havia tocado na vida, etc.. Hoje em dia, esse tipo de trabalho praticamente não existe mais e as pessoas estão aprendendo música apenas na escola. Por isso, nas aulas, tento passar tudo da forma mais musical possível, já que, além de ouvir CDs bons, outras fontes de aprendizado real - como tocar em bares, bailes, etc. - vêm se tornando cada vez mais raras.

Saí da Santo Angellus como diretor musical em 1996 - e sou muito agradecido pela experiência. Saí porque, além do repertório ter piorado bastante - uma banda de baile toca o que toca no rádio, e, em 1996, já tínhamos duas seleções de 'pagode' e duas de 'axé'! Então você imagina... -, senti que já tinha esgotado meu tempo nos bailes. Estava afim de outros desafios e de, principalmente, tocar música instrumental.

Em 1995, eu já trabalhava no Souza Lima. Fiz um workshop no auditório em maio no evento Guitar Mix pra lançar umas vídeo-aulas que fiz com a editora Hélio Cortez Music (editora cujo proprietário Ricardo Cortez resolveu não me pagar mais há uns três anos pelo que me deve em relação às vendas das video-aulas e do livro "150 frases") e fui chamado pelo Mario, que é o diretor, pra dar aulas. Logo depois de mim, entrou o David Richards, um saxofonista americano que estava morando no Brasil há alguns anos, e eu gostava muito de ouví-lo no Sanja Jazz Bar.

O Sanja era, para mim, um lugar sagrado. Um dos meus maiores sonhos na época era poder tocar lá. Me lembro que uma vez cheguei a dar uma canja num show do Jonnas Sant'Anna, toquei "Billie's Bounce", mas ainda não me sentia preparado.

Vale comentar que uma coisa que nunca fiz - e que muita gente desavisada faz hoje - é pedir pra dar canja. Sempre esperei ser chamado. Considero pedir pra dar canja algo como "colocar o carro na frente dos bois".

Em 1996, eu estava na sala do Joe tocando uns standarts e o David chegou e tocou "Ana Maria" com a gente. Ele curtiu o que eu estava fazendo e me chamou pra dar uma canja com o grupo dele no bar Charles Edward, no Itaim.
Lá fui eu com minha Fender Stratocaster 1973 com cordas .010 e toda cheia de adesivos...
A banda do David na época era: Marcelo Gomes na guitarra, Luizão Cavalcanti no baixo e Marcos Costa na bateria. Chegado o momento da canja, o tema escolhido foi "So What". Tocamos, eu estava um pouco nervoso, mas rolou.
Logo depois, o David me convidou pra entrar na banda e fazer temas próprios. Junto comigo, entrou a pianista Mika Mori.

Eu e o David nos tornamos parceiros de composição e tocávamos as músicas nas noites de terça-feira no Sanja. Chegamos a gravar um CD, com a nova banda, em 1997: Cuca Teixeira, Sandro Haick e Pepe Rodrigues. Tem coisas muito legais nesse CD, mas acho que nunca será lançado. Nessa épóca também fui chamado pelo Sandro pra gravar um solo no CD "Mr. Motaba" (esse foi lançado, e está esgotado) - minha primeira gravação num CD de música instrumental; participei da faixa "Speed Racer" e, algum tempo depois, fui convidado a entrar no grupo também. Logo depois de gravarmos o CD do David, começamos a tocar apenas standarts no Sanja. Essa fase foi importantíssima pra mim.

Por influência do Sandro e do Cuca, comecei a ouvir direto o Miles Davis Quintet - com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams - e nós três começamos a tomar certas liberdades no som - mas sempre na forma! Além disso, o repertório ia crescendo a cada semana, principalmente quando o Wilson Teixeira ia como substituto do David. Nessa época, eu comecei a parar de tocar 'licks' e a me preocupar em deixar a parte rítmica mais relaxada, ou seja, 'correr' ou 'afobar' menos. E comecei a ouvir mais seriamente e a sacar a liberdade musical de Sonny Rolins, Thelonious Monk, Coltrane, etc. Lembro que o Sandro uma vez me disse "Pará de tocar licks. Você tem uma puta técnica, vai passar por uma fase negra de 'nem tocar licks e nem improvisar', mas vai conseguir". Era o que eu sentia. E foi o que começou a rolar.

Me lembro que, numa noite, estávamos tocando "Donna Lee" e , por alguns segundos, senti que eu tocava justamente o que a música me 'mandava' tocar, era perfeito. Senti o que realmente significava 'servir à música' por alguns segundos e pensei "quero tocar assim minha vida inteira!". A luta é essa: fazer aqueles poucos segundos de êxtase se expandirem cada vez mais.

Tocamos no Sanja de 1996 a 1999 - todas as terças. Inclusive, fechamos o bar... Gravamos o CD do Mr. Motaba Ao Vivo (que um dia será lançado)- com participações do Arismar do Espírito Santo, Daniel D'Alcântara, Wilson Teixeira e Armando Marçal - e foi um dos últimos sons que rolaram ali.


Sandro, Cuca, eu, David e Pepe (1997).

8 comentários:

Vitor Cabral da disse...

Poxa, que pena que hoje as bandas de baile mais estragam os músicos que formam né?
Fazer entradas de Axé,Pagode e até funk carioca são punk!
Toquei com o David quando tinha 15 anos e frequentava uma igreja protestante, ele havia se 'convertido' e estava montando uma big band. Lembro na época que entrou eu e o Cássio de sax (que toca com você hoje). Foi um baita aprendizado..
é impressionante como um comentário simples desses caras reverberam em áreas inimagináveis do ser de maneira infinitas!
Lembro quando muleque desse gig no Sanja também e tenho este disco que vc´s gravaram com o David!
hehehe

Legal este seu blog Michel, vou voltar sempre!

Se puder, veja um som que eu gravei com o Cássio há uns anos (ou 1 ano,seilá) atrás..
http://www.youtube.com/watch?v=JXt0ie9DKxM

Abração!

vitor cabral.

Michel disse...

Valeu mesmo, Vitor!
Fiquemos em contato, abração!
Michel

Ernesto Paulo disse...

Michel, como já falei ou escrevi, não sou músico, mas procuro estar sempre "perto" de bons músicos, e fui à muitos e muitos bailes, aqui em São Carlos, havia algumas bandas de baile que lotavam os clubes, vc nem conseguia se mover, e tenho alguns amigos que tocaram e cantaram nessas bandas, e o que sempre foi dito por eles, é que é uma puta escola de vida e música....o que vc escreve como sente a música é especial, é de deixar a os cabelos do braço em pé.....Grande Michel Leme....recetemente fui nas formaturas de meus filhos, tem uma banda é boa pra caramba, porem tiveram que optar pelos "axes" e "pagodes", foi um saco ter que ficar ouvindo aquilo tudo....por isso é que sempre que posso, escolho ouvir música que faz bem a minha alma, e é por isso tbem que ouço tuas músicas, parabéns mais uma vez pela sensibilidade ao escrever suas emoções e criticas...vc já penseou em ser escritor????pense nisso...Ernesto

Michel disse...

Obrigadão, Ernesto!
Acho que escrever é meio parecido com tocar, tem que escrever bastante até achar o melhor jeito de expressar o que quer dizer - com a diferença que você pode ficar apagando até ficar bom, ao contrário da música! Eu vou escrevendo e aprendendo, é uma luta divertida.
Quanto às bandas de baile, é uma pena que tenham que tocar o que "faz sucesso"... As rádios estão dominadas pelo lixo das gravadoras que têm mais grana. É imoral, é um insulto a quem ouve. Por isso, em 1996, saí da banda de baile; eu já sabia que a coisa iria piorar.
O mesmo acontece com essas bandas de rock que tocam cover nos bares: têm que tocar umas merdas como CPM 22, J Quest... ARGH!
Nos dias de hoje - e acho que nunca foi diferente -, quem quer fazer arte está isolado e mal pago. Por isso, trabalho com aulas.
Você toca o dia inteiro, passa coisas boas pros caras e não tem que tocar coisas que não acredita pra sobreviver. Aí, depois de pagar as contas, você toca o que quiser, como quiser e com quem quiser.
É importante trabalhar, levantar uma grana, como fazem os caras que tocam com pseudo-artistas bancados por gravadoras que têm poder econômico, e os caras que tocam com bandas cover ou bandas de baile... Mas que cada músico desses possa sempre lembrar de desenvolver seu talento, tocando e (como diz Stravinsky no livro Poética Musical em 6 Lições) inventando música.

Abração!
Michel

Andre Goes disse...

Lendo esse ´post' me lembrei de uma cena que o Michel contou sábado (01/12/2007), ele disse que quando tocava nos bailes depois de umas 4 horas tocando o dono pedia pra ele tocar uns sambas-enredos! Segundo ele já estavam exaustos e mesmo assim tinha que tocar por uns 30 minutos ainda! O bom disso, segundo ele é que ele saía de lá super malhado, com braços fortes e torneados! Hehehehe, muito engraçado! Mas enfim, sou saudosista também em relação à música, parece que perdeu-se o tesão de fazerem músicas alegres sem serem vulgares. É uma pena! Vlw Michel.

Driko disse...

Michel, malandro, esta foi a melhor resenha que eu já li, parte de sua história refletiu como um dejavu em mim... muito foda, sempre leio teu blog, mas dessa vez pego de jeito cara, foi tipo "mano, não to sozinho mesmo..."

Mas mais foda é saber que tu tá aí batalhando não só pela arte, mas por todos nós músicos, seu esforço em pró da arte, sua preocupação com as gerações seguintes, em fazer música verdadeira, em resgatar as pessoas que por ventura se perderam na mediocridade
é Foda mano!
Pode até demorar, mas isto que você faz, já abriu muito espaço para a boa música! DO CARALHO!

Total admiração, muito orgulho tbm, espero me dedicar muito à arte, a honestidade e ao bom caráter, assim como você.
O mundo necessita disso, todos trabalhando por mais dignidade a nós seres humanos, aos verdadeiros apreciadores da arte... por mais dignidade a quem serve à Arte, e isto é algo que você mesmo sempre me lembra, em toda aula!


Abração Mitchew!
Keep Posting!

Michel disse...

Valeu mesmo, Adriano!
Abração e muito som!
Michel

Anônimo disse...

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