segunda-feira, 20 de agosto de 2007

FÃ OU APRECIADOR?

Na definição do dicionário Aurélio, a palavra fã significa "admirador exaltado de certo artista de rádio, cinema, televisão, etc.". O termo "exaltado", por sua vez, quer dizer exagerado, excessivo. E é esse exagero que me distancia do uso do termo 'fã' em meu dia-a-dia.

Acho que a idéia de "fã" e "ídolo" é uma distorção de comportamento, isto é, ser fã pressupõe sentir-se inferior ao ídolo, alguém "incapaz de chegar aos pés dele..."

Por outro lado, quem se sente ídolo, está vivendo a patológica ilusão de se achar superior a alguém.

A relação fã/ídolo é mais um equívoco ostensivamente incentivado pelas corporações através da mídia, considerando que este é mais um fator que leva ao consumo voraz, e ainda colocando como verdadeiro fã aquele que compra qualquer produto relacionado a determinado artista ou celebridade, sem questionamento.

Acredito que o termo 'apreciador' caiba melhor àqueles que gostam da arte de alguém, soa muito melhor chamar de 'apreciador de arte'. Esse termo deixa clara a oposição ao culto pela pessoa do artista - ou por seu modo de vida, suas mansões, seus carros, etc.

Me lembro que, quando garoto, eu queria completar a coleção de discos de algumas bandas. Aí eu ouvia alguns discos dos quais não gostava e me questionava:

-"Ué, será que eu sou chato a ponto de não ter gostado de algo desses caras?!"

Refletindo algum tempo depois, percebi claramente que não era isso, eu simplesmente não gostava! E isso foi muito melhor do que me tornar um zumbi, me obrigando a aceitar algo que não me agradava só para ser fiel à pessoa do artista.

No meio 'guitarrístico', com o qual tenho algum contato, vejo coisas esdrúxulas acontecendo. Como por exemplo, alguns garotos atribuírem importância demais a determinado artista só por terem visto o mesmo numa revista especializada, mesmo sem ter ouvido o seu som; e em contrapartida temos aquele que diz não gostar de determinado artista, só porque o seu “estilo” não foi definido pelo jornalista com o rótulo de sua preferência. ..

Essa superficialidade não é culpa apenas do "paga-pau" do exemplo acima, é fruto direto do massacre da mídia vendida, que bate dia e noite na tecla que perpetua a idolatria. Alguns minutos em frente à TV já bastam pra se enojar com o ‘imbecilizante’ culto às celebridades, por exemplo.

E os anunciantes mais pesados - leia-se corporações -, é quem ditam os padrões de comportamento, ou tendências de consumo. A mídia funciona como um alto-falante nocivo que repete as instruções abomináveis dos que a sustentam. E quem não tem meios pra questionar, compra e essa é a perversão! Se aproveitar da ignorância do povo, que tem sido economicamente proibido de buscar cultura.

Mas não devemos temer quem parece mais forte, porque a sua opinião com base, caro leitor, vale muito mais do que a opinião com interesses escusos da "emissora de TV descolada" que dita comportamentos e diz que "fulano é gênio" ou "essa banda é maravilhosa" - e quando você ouve, percebe que é mais uma mentira deslavada que objetiva o consumo puro e simples.

E isso perdura até aparecer o próximo "gênio", inventado pela mesma gravadora, que tem a grana pra comprar toda a "grande mídia" pra divulgar seu novo marionete, etc. É um verdadeiro ciclo vicioso.

Um amigo, sabiamente, me disse certa vez que se você tem a consciência de algo, é sua obrigação alertar àqueles que não a possuem. Por isso, faça valer sua opinião - seja numa conversa ou em espaços na net, como blogs e fóruns - e não tenha medo de se contrapor às unanimidades burras. Só não podemos nos calar!

E se você conseguir fazer alguém começar a questionar tudo isso, já valeu.

Michel Leme

15 comentários:

jose disse...

Muito Bom Michel !
Me considero um admirador do seu trabalho, da sua personalidade e carisma e principalmente do seu sentimento em tocar cada nota.
Seria um fã ? Para mim não teria problema... Grande abraço. José Barci

Michel disse...

Obrigado por comentar, José!
Abração,
Michel

Portal NoCabo.com disse...

Coluna publicada, ótima por sinal... parabéns! Concordo com o termo "apreciador", mas um fã também é válido! Obrigado por compartilhar tuas idéias conosco Michel!

Abraço do fã,
Maurício Barca.

Michel disse...

Firmeza, Maurício!
Abraço,
Michel

George disse...

Muito bom o texto Michel, para esta meninada é tênue a diferença entre apreciador e tiete. Acho o meio "guitarrístico" peculiar comparado com os outros meio de musicos, a arrogância dos guitarristas é um reflexo realmente de um auto-marketing e imbecilidade. Lembro de uma entrevista de João Castilho onde ele disse que achava que tocar bolero era mais facil que "tira doce de criança" e passou vergonha gravando com Nana Caymi ele passou a ser mais humilde e pé no chão.

Abraços George

Michel disse...

valeu, George.
Cultivar a virtude da humildade é um dos grandes desafios do músico.
A gente vê cada uma por aí...
Abração,
Michel

Jêh disse...

Então eu sou uma grande apreciadora de sua música!

Tb não concordo com a idéia de fã e ídolo. É, realmente, uma distorção de comportamento.

Adoro seus textos! Sempre passo aqui p/ lê-los. Muitas vezes não comento pois o silêncio também é uma forma de apreciar.

Beijos!

Jenny (Pikena-chan).

Michel disse...

Valeu por comentar, Jenny!
E obrigado por colocar meu link no seu flog.
Abraço,
Michel

Ismael disse...

E ai Michel,
parabéns pelo texto! Pude presenciar um workshop seu, no 1ºseminário de harmonia do em&t, e fiz questão de anotar algumas reflexões que você nos proporcionou aquele dia.
Sou estudante de música, estudo com o alemão na ulm, e faço unicamp tbm. E acredito que para nós, estudantes, esse tipo de estímulo, (ou seria ensinamento), é fundamental. Quiça pessoas como vc, o Alemão, o Mozart(isso falando apenas nos guitarristas) estivessem mais expostos na mídia, seria um grande avanço! com ctza!
é isso ae...

ABraço

Michel disse...

Ismael,

Muito obrigado por postar.
Acho que a mídia é essa! O que for mais honesto, estou dentro! Prefiro me dirigir diretamente a você com toda liberdade e sinceridade neste humilde blog. Estar na 'grande mídia', que é a mais espúria por ser vendida, seria concordar com todo o lixo bancado pelas corporações (gravadoras multinacionais) que está sendo despejado por aí.
O meio (a mídia) nós fazemos!
Abraço,
Michel

Marcim disse...

Pois é Michel, cada um que aparece...
Teve aqui (BH) o Seminário de Harmonia, só fera! Mozart, Toninho Horta, Okayama e Ulisses Richa.
E na entrada um cara me abordou, e conversando ele me dizendo, "não, porque eu estudei no Souza Lima, com fulano e ciclano..."
Fiquei quieto, mas devia ter falado: Foda-se!!!!
Os regrados não gostaram do Toninho... Mas também... não entenderam...
E todos esses professores demonstraram uma humildade, um respeito pelos ali presentes que me espantou muito, porque eu duvido que o guitarrista do Jota Quest (que devia ter ido aprender algo ali, teria essa humildade...

grande abraço
Marcim

Michel disse...

Pois é, Marcim.
O materialismo invadiu o ramo da música de vez; o lance agora é TER e, não mais, SER. Quem tem grana pra estudar em lugares caros ou pra se "formar" fica arrotando isso por aí, como se o azedume dessa retórica patética fizesse o milagre de transformar uma múmia surda em alguém com valor musical e artístico. E isso é apenas mais um exemplo do que está rolando hoje, assim como o que você nos conta em seu comentário. Que bom seria se as pessoas começassem a apenas ouvir e a tocar música novamente... Mas, não: o cara começa a tocar ontem e já quer ter patrocínios, reconhecimento, exposição na mídia, enfim, tudo o que viria naturalmente depois de anos tocando e conquistando alguma excelência na música, ou seja, depois de muita luta. Mas, para a maioria das pessoas, a música está em segundo plano, infelizmente. O que os caras almejam é o estrelato imediato - e tudo mais que o ego lhes impõe. Resultado: muita gente vendendo lixo em embalagens bonitinhas. A mentira está aí! Só compra isso quem não tem capacidade de ouvir a música.
O grande trunfo desses impostores é mostrar papéis, ter um bom "xaveco", além de exibir suas estúpidas atitudes arrogantes. Repito, compra esse lixo quem quiser!
Para quem é musical, a solução é uma só (e sempre foi): TOCAR! E daí vem os eventuais patrocínios, Cds, vídeos e o resto. Acho que uma das coisas que separam o impostor do verdadeiro músico é a necessidade de tocar, de fazer música. Vamos ver se esses impostores estarão tocando daqui a dez anos; provavelmente terão cargos burocráticos em instituições "musicais" ou irão se tornar produtores musicais milionários que vendem lixo pra ostentar um padrão de vida digno de um materialista de sucesso... Resumindo, os impostores não gostam de tocar! Escolhem a profissão de músico sem ter o talento necessário para a coisa. Mas, já que passaram anos gastando o dinheiro de suas famílias, tentam se impor no ramo através de papelada inútil, muita pose e enunciar seus tristes currículos.
Quem faz música não precisa de nada disso: emociona sem precisar "se impor" de nenhuma maneira; apenas confia na divina música, dedica-se a ela e torna-se UM com ela ao tocar.
Abraço,
Michel

Jêh disse...

Bom, eu não toco...não sou musicista mas aprecio a boa e sincera música. Não compro lixo. A mídia não me faz a cabeça.
Só não entendo como conseguem manipular tantas pessoas...os ouvidos do povo precisam de cotonetes, urgente! E as cabeças...Não é possível tamanha falta de personalidade. A mídia não teria tanto poder se não fosse os inúmeros compradores de lixo.


Jenny. ^^

Michel disse...

Valeu, Jenny.
As pessoas são manipuladas através da simples repetição. Por exemplo, a música que deve ser enfiada goela abaixo do povo pra dar lucro, toca o dia inteiro no rádio e é anunciada com entusiasmo como a mais nova, etc. Tudo está pago, o esquema está feito. Só toca porque rolou grana, o nefasto jabá... Na tv, ocorre a mesma coisa: grana! Aí o cara anuncia como a novidade do mês e vai lá o marionete (cantor/cantora) pra dublar e a música (leia-se 'o produto') fica na cabeça das pessoas, mesmo sendo uma merda, por simples repetição (leia-se 'massacre'). Daí pro povo comprar e entrar no esquema de consumo é um passo.
A única coisa que temos é nossa integridade. Aqui em casa não rola música ruim; não assisto ao Faustão, Gugu e essas merdas; não ouço FMs vendidas; quando vou tocar, ninguém me diz o que fazer; etc.
Enfim, cada um vai lutando com as armas que tem. Espalhemos essa consciência, creia que cada um pode fazer a diferença.
Abraço,
Michel

Paulo disse...

Eu que fiz aquela pergunta sobre idolatria no ''formspring''. Ótimo texto, bastante esclarecedor, me fez realmente pensar melhor nas minhas opiniões.
Abraço, Michel, e continue colaborando com suas ideias!