Músicos que ouvem - primeira condição para tocarNesse mês que passou, pude fazer sons com as mais variadas pessoas e pude aprender muito com as inomináveis situações musicais que aconteceram. E acredito que estas situações aconteceram pelo simples fato de todos realmente quererem ouvir a música que estava acontecendo no momento, além da disposição em fazer arte coletivamente. Como já disse várias vezes aqui, em se tratando de música improvisada, querer ouvir o outro é condição para que aconteça algo realmente musical. Isso faz com que você tire o foco do
eu e se ligue no
todo, tornando-se um instrumento da Música - algo inominável, indescritível, e, obviamente, muito maior que todas as ilusões como orgulho, vaidade, auto-promoção, necessidade de aprovação das pessoas, etc.
Cabe dizer aqui que estas ilusões vêm transformando vários seres que até têm o potencial para fazer música em verdadeiros fariseus (hipócritas). Pessoas acometidas por esse mal tocam como quem distribui cartões para divulgar um negócio, destruindo qualquer possibilidade da música acontecer. Alguns deles até têm habilidades e acabam enganando muita gente através de seus ardis. Mas, na minha opinião, ser hábil é algo destituído de valor se não estiver no contexto da música que está acontecendo no momento. Se você treinar um macaco, por exemplo, conseguirá com que ele faça coisas parecidas com as que os seres humanos fazem, pode até fazê-lo tocar escalas numa guitarra, e isso pode até ficar engraçadinho e arrancar aplausos. Mas construir algo musical ainda é algo fora das capacidades dos nossos queridos e simpáticos irmãos símios. Pois bem, é assim que vejo esses fariseus: macacos treinados! Só que com a desvantagem de não possuirem a mesma simpatia e graça dos símios de verdade...
Mas, apesar do ramo da música estar infestado desses "mercadores do templo" (como em qualquer outra profissão), tenho tido a boa sorte de tocar com pessoas que tocam porque realmente
precisam tocar, porque
amam a música e sentem prazer em atuar
coletivamente. Estes fazem com que seja necessário menos esforço no momento de tocar, parece que tudo flui mais fácil, naturalmente. Ao lado deles é possível sentir um espírito de verdadeira colaboração, de ação em conjunto, como se um grupo fosse um só ser em sintonia com a música.
O ambiente contaSomado a esses raros músicos, o ambiente também colabora, inegavelmente, para o acontecimento da música. Por isso, parei de tocar em vários bares ditos de "jazz" de São Paulo pelos problemas já muito conhecidos de quem toca por aí: o tradicional pedido para diminuir o volume devido à ameaça das multas do Psiu - porque, na maioria avassaladora das vezes, o bar não tem tratamento acústico adequado; o proprietário espertinho que rouba dinheiro dos músicos no couvert artístico; problemas com a falta de continuidade das datas (um som hoje e o próximo pra daqui a seis meses); as conversas intermináveis de pessoas estúpidas que pagam couvert para falar alto e perturbar tanto os músicos quanto as outras pessoas que também pagaram couvert pra ouvir música; etc. Já disse e repito: estou fora dessa! Por isso, procuro tocar em lugares onde as pessoas comparecem para simplesmente ouvir música, que no momento são:
Auditórios de escolas:
- todas as quintas na Cia da Música, onde toco no programa Michel Leme & Convidados;
- na Virtuose, onde toco um sábado por mês;
- no Souza Lima Moema, também um sábado por mês;
- na EM&T, onde faço uma jam session na última quarta-feira do mês;
- no Instituto Anelo em Campinas, onde acontece uma prática de conjunto comigo a cada um mês e meio;
Na rua:
- projeto Toca Brasil, em frente à loja Matic Instrumentos, um sábado à tarde por mês também;
Nestes lugares, onde o glamour das grandes produções passa longe, há a oportunidade de simplesmente tocar livre - ou tocar o que a música pede. Além disso, é possível trocar idéias com as pessoas que comparecem. Eu costumo conversar com várias delas e aprendo muito com suas histórias de vida. É uma troca real, enriquecedora.
Sem máscaras Nos lugares citados acima, há um número mais modesto de pessoas assistindo em virtude dos espaços serem menores que os espaços ocupados pelos eventos que têm divulgação nos jornais, rádios e tvs, por exemplo. Mas essa proximidade, a troca de idéias - sobre temas variados como a manipulação por parte da mídia, a arte separada do cotidiano das pessoas, os métodos de ensino equivocados que algumas instituições impõem, as alternativas pra ficarmos ilesos a esse estado imbecilizante de coisas, etc. -, somados à real possibilidade de fazer música, fazem a relação artista/público ter uma conotação muito mais viva, estimulante e profunda.
E quando o som acontece sem artifícios, máscaras ou gestos heróicos, todos ficam mais à vontade. Isto facilita tanto a própria assimilação da música quanto a troca de idéias. Em lugares como estes que citei não há tentativas de desviar a atenção das pessoas em relação à música, tais como efeitos especiais, bases pré-gravadas, dançarinos, show pirotécnicos e coisas do tipo; o que temos são simples encontros de pessoas que gostam de tocar com pessoas que gostam de ouvir. E essa maneira mais humana de se relacionar deixa todos numa posição de maior igualdade, ao contrário do que acontece no 'showbizz', onde o artista é colocado numa posíção de superioridade, como um "semideus intocável".
Para mim, essa igualdade é o ideal. Ela faz com que o ato de tocar e de reunir as pessoas tenha propósitos e resultados cada vez mais nobres, edificantes, verdadeiros. Penso que a arte nunca deixará de ser arte, ela simplesmente
é; o Homem é que precisa estar em condições de entrar nesse reino. Mas quando há a menor tentativa de lucrar ou de se adequar a um
status quo, já não há mais arte. E o "toque de Midas" às avessas da "grande mídia" e das corporações também é infalível neste ponto: eles têm o poder de apodrecer tudo aquilo em que tocam, sugando a essência das coisas e vendendo suas embalagens mortas. Por isso, é melhor estar longe tanto do egocentrismo quanto desse "esquemão" que inclui táticas abomináveis como jabá, tráfico de influência, massificação, etc. Arte não tem a ver com isso, e nunca teve! Se há massificação o que se tem é um produto para consumo e a censura da expressão artística. Ponto. Por isso digo que é melhor fazer um som para pouquíssimas pessoas, mas que sejam as pessoas que realmente ouvem a música - e por vontade própria (que sejam poucas, mas que sejam as certas...).
Resta-nos descobrir e/ou inventar novos espaços e meios para que o artista possa expressar-se sem restrições, sem almejar nada que não seja simplesmente exercer a sua arte dignamente, sem artifícios ou manobras visando o estrelato ou lucro. Isso elimina todo o farisaísmo e toda a intromissão abjeta de corporações, atravessadores, instituições ou da mídia vendida... É necessário, cada vez mais, ter o artista fazendo o que ama perante as pessoas, da forma mais livre e mais próxima quanto for possível. Sem máscaras... Aí não tem como mentir.