Relevância, na sociedade materialista de hoje, é definida pela quantidade de lucro que algo ou alguém gera e pelo seu nível de exposição na mídia. A ordem desses dois fatores não importa, já que uma coisa vai levar à outra - basta estar 'inserido'.
Isso quer dizer que, sob este ponto de vista infame, na imprensa dita musical as pessoas vazias e desprovidas de qualquer talento podem ter muito mais relevância (e conseqüente exposição) que artistas de fato. Isso, óbvia e infelizmente, é o que mais se vê por aí.
Um dos principais problemas da área cultural de jornais, revistas semanais, TVs e alguns sites que atingem um público maior é que os jornalistas responsáveis por publicar agendas e resenhas sobre CDs e shows não saem em busca de pauta. Todo esse material simplesmente cai no colo deles, aos montes. Então, acomodados e com egos cada vez mais inflados, eles se travestem do mesmo "pequeno-poder" dos porteiros de boate em relação às "suas" agendas culturais: eles decidem quem entra ou não!
Mas será que a base dessa decisão é justa, ou mesmo limpa? Pergunto isso porque, se o assunto fosse realmente música, provavelmente as seções de shows das agendas culturais que vemos por aí seriam bem diferentes. A verdadeira cena musical não corresponde apenas aos 'grandes shows' para mais de cinco mil pessoas ou ao que acontece apenas nos lugares da moda. A música acontece também em lugares para apenas cinqüenta pessoas, por exemplo (e eu me arrisco em dizer que acontece muito mais nesses ambientes do que nas grandes produções, onde a espontaneidade é um mero truque de cartas marcadas), e isso não é relevante?
Sob o ponto de vista musical/artístico, é relevante sim, com certeza. Já presenciei maravilhas acontecendo nos bares por aí, muitas e muitas vezes - seja música instrumental ou cantada. Posso testemunhar também que muitas pessoas que estavam presentes em várias noites nas quais toquei (eventos invariavelmente desprezados pela mídia, diga-se) fizeram e fazem questão de me procurar pra comentar, mesmo semanas (ou anos) depois! E essas pessoas voltam nos próximos shows, compram CDs, etc. Isso é algo que vai muito além de ser relevante ou não para esses veículos, é algo de verdade.
Então, porque este tipo de arte deve ficar escondida, restrita a guetos? Porque isto vem sendo proibido de chegar ao grande público - mesmo com os assessores dos artistas e os bares (e pequenas casas de shows) mandando agenda para estes veículos? Onde está a tal independência jornalística na hora de divulgar, na mesma agenda (ou numa mesma cobertura), um evento para dez mil pessoas e, na mesma página, um outro pra quarenta pessoas? Ou mesmo o evento de um artista contratado de uma corporação multinacional e o de um artista independente? Enfim, onde acaba o jornalismo e onde começa o comércio?
A posição de jornalista seria reservada para aqueles que têm como objetivo informar, levar o que realmente acontece a público, listar as opções, etc. Mas isso não é o que vemos nessas agendas ou guias culturais. É o 'mais do mesmo' a cada publicação e pronto! Talvez isso ocorra por mero capricho, talvez por incompetência, por lobby, não se sabe... Mas só por barrar a divulgação de manifestações artísticas por meio da omissão, já se está privilegiando as imbecilidades que as corporações precisam desovar de seus estoques. E só está livre de ser "barrado", obviamente, quem paga (bem caro) por anúncios nesses veículos ou quem está "inserido" na Indústria Cultural - como os contratados de gravadoras multinacionais, "celebridades", etc.
Como as corporações são sempre os anunciantes mais fortes, a independência jornalística se reduz a mera bravata, expelida pelos cadáveres que ocupam o lugar de jornalistas sérios e aceita pelo verdadeiro exército dos ingênuos 'consumidores que acreditam pensar'. "Eu assino a revista 'x'. Estou sabendo das coisas!" - dizem com orgulho. Mal sabem...
Quanto ao pseudo-jornalista, não consigo achar outro adjetivo para alguém que arrota ser conhecedor de Wagner, mas que, efetivamente, só ajuda a vender Fergie e congêneres... É um cadáver! E ao invés de estar enterrado, é um cadáver ambulante, que serve como mais um hospedeiro para os vermes do lobby e da conseqüente perpetuação da mediocridade generalizada imposta pela Indústria Cultural.
Se meu testemunho vale algo, em quatorze anos tocando música instrumental por aí, conto nos dedos as vezes em que saiu algo referente ao meu trabalho nos chamados grandes veículos da mídia. E tem muita, muita gente sendo excluída por aí também, obviamente. Estou querendo holofotes? Não, apenas igualdade. Quero apenas que a agenda que esses caras recebem seja publicada. E, se possível, que isto seja feito de forma justa, com base em critérios musicais e artísticos.
O que fazer, então?
Em primeiro lugar, boicote! Eu, por exemplo, não compro e não assino nenhum desses veículos. Acho que, além de terem essa política abjeta de privilegiar aos que estão inseridos na Indústria Cultural, eles são uns vendidos de uma forma geral - é só reparar no destaque que dão a novelas e reality-shows, por exemplo... É patético. Esses espaços caríssimos poderiam ser usados pra divulgar cultura de verdade, mas não são - e não é por falta de pauta. Vamos parar de financiar quem nos despreza.
Em segundo lugar, procurar veículos realmente independentes. Continuo mandando minhas datas de shows para sites que, apesar dos modestos recursos, sempre as publicam, e de forma pontual. Além disso, eles exibem uma agenda de shows realmente democrática, que serviria de exemplo de prática jornalística para os chamados 'grandes veículos'.
E, enquanto esse estado de coisas permanece, quero desejar aos "jornalistas-cadáveres" um bom salário (e "vantagens adicionais") nesse mês e que continuem sendo adequados à Indústria Cultural. Vocês se merecem.
Michel Leme
Correção gramatical e contra-argumentação: Bruno Bacchi.
domingo, 23 de março de 2008
Sons
Essa semana foi abençoada.
Toquei na terça-feira em duo com Alexandre Mihanovich no Pomodori Jazz'n Wine, no Itaim; na quarta-feira teve a Jam Session no Ao Vivo Music com Thiago Alves e Serginho Machado - com a presença do amigo Arismar do Espírito Santo e vários novos amigos que deram canja também; sexta rolou o aniversário do Thiago Alves no Teta com Cuca Teixeira, Wilson Teixeira, Thiago Alves e eu - mais as canjas dos amigos Arismar e Serginho Machado; hoje toquei com A FIRMA no projeto Jazz nos Fundos. Eu, Cássio Ferreira, Thiago Alves e Serginho Machado - com canja do amigo Cuca Teixeira. Foi muito, muito bom... MESMO!
È maravilhoso tocar quatro vezes numa semana. Isso teria que ser o normal, mas, devido a vários fatores, é raro hoje. É raro, mas temos que lutar pra tocar mais!
E quinta-feira tem Cia da Música, às 19:30, na Rua Afonso Celso, 124 - Vila Mariana (SP). Desta vez eu toco em duo com o amigo saxofonista Cássio Ferreira (A FIRMA e outros trabalhos de música instrumental).
Pra saber da agenda de abril, acesse http://www.michelleme.com/agenda.asp
Uma bela Páscoa e uma maravilhosa semana a todos.
Abraço,
Michel
Toquei na terça-feira em duo com Alexandre Mihanovich no Pomodori Jazz'n Wine, no Itaim; na quarta-feira teve a Jam Session no Ao Vivo Music com Thiago Alves e Serginho Machado - com a presença do amigo Arismar do Espírito Santo e vários novos amigos que deram canja também; sexta rolou o aniversário do Thiago Alves no Teta com Cuca Teixeira, Wilson Teixeira, Thiago Alves e eu - mais as canjas dos amigos Arismar e Serginho Machado; hoje toquei com A FIRMA no projeto Jazz nos Fundos. Eu, Cássio Ferreira, Thiago Alves e Serginho Machado - com canja do amigo Cuca Teixeira. Foi muito, muito bom... MESMO!
È maravilhoso tocar quatro vezes numa semana. Isso teria que ser o normal, mas, devido a vários fatores, é raro hoje. É raro, mas temos que lutar pra tocar mais!
E quinta-feira tem Cia da Música, às 19:30, na Rua Afonso Celso, 124 - Vila Mariana (SP). Desta vez eu toco em duo com o amigo saxofonista Cássio Ferreira (A FIRMA e outros trabalhos de música instrumental).
Pra saber da agenda de abril, acesse http://www.michelleme.com/agenda.asp
Uma bela Páscoa e uma maravilhosa semana a todos.
Abraço,
Michel
quarta-feira, 5 de março de 2008
O ÁLBUM DO ANO

É curioso ver um disco como "River - The Joni Letters" de Herbie Hancock ganhar o Grammy de "Álbum do Ano" (também ganhou como "Melhor álbum de Jazz Contemporâneo"). Ao meu ver, muitas coisas estão nas entrelinhas deste fato, que inclusive foi destacado como surpresa pela imprensa.
Eu ouvi o disco. É bem tocado, tem bons arranjos, belas harmonias e momentos bons - principalmente por parte do senhor Wayne Shorter, que parece não estar nem aí para a assepsia reinante no CD e faz o "trabalho sujo", ou seja, toca pra c......! E tem as participações das cantoras Tina Turner, Norah Jones, a própria Joni Mitchell (cujas letras inspiraram o projeto todo), Corinne Bailey Rae, e a brasileira Luciana Souza. Na última faixa, Leonard Cohen recita "Jungle Line".
Importante dizer que das dez músicas do disco, quatro são instrumentais. Isso, na minha opinião, é significativo para o gênero, visto que representa 40% de um disco premiado como álbum do ano (independente de ser pelo Grammy ou por qualquer outra instituição). Mas, em se tratando de Herbie Hancock, é um disco muito, mas muito comportado e comercial se comparado a ábuns anteriores - os quais fizeram seu nome tornar-se sinônimo de qualidade.
Mas a questão não é julgar se o disco merece ou não o Grammy. Em primeiro lugar, eu não usaria tal discurso, simplesmente por não dar crédito a uma premiação do tipo "nós fazemos e nós mesmos premiamos o que fazemos". Em segundo lugar, o disco é bom, se comparado ao que vem sendo produzido atualmente nos Estados Unidos da América.
A questão principal é: qual o recado que a indústria fonográfica (ou, por extensão, cultural) está tentando passar por meio desta premiação?
Para mim é claro: "o artista pode ter todo o talento do mundo como compositor, instrumentista, improvisador, arranjador, etc, mas precisará dos artistas que NÓS projetamos para ter sucesso de verdade". É como se isso desse sustentação para argumentos como "só quando o Herbie gravou com a Norah Jones e com a Tina Turner é que conseguiu o prêmio de ábum do ano". É imbecil, mas tem o aval do Grammy!
Ver um artista de excelência como Herbie Hancock ser 'agraciado' com esse prêmio me faz lembrar do cinismo de alguns canais de TV que, sendo obrigados por lei a exibir programas educativos, o fazem, mas às 05 da manhã! Esse cinismo chega no ponto máximo ao observar que o prêmio veio justamente no momento em que o pianista lança seu disco mais adequado ao 'modus operanti' vigente. Ou seja, a oportunidade de fazer a média foi agarrada, antes que o Sr. Hancock grave um outro disco mais radical ou de vanguarda...
Para tentar esclarecer essas manobras da chamada indústria cultural, recorro ao filósofo alemãoTheodor Wiesengrund Adorno (1903-1969), que foi o primeiro a negar o termo "cultura de massas" para criar o termo "Indústrial Cultural", que segundo ele "impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente". Ou seja, o homem, para a indústria cultural, é um mero objeto. Por meio do massacre constante da mídia, ele se torna uma máquina de consumir qualquer coisa. Adorno ainda coloca: "interessada nos homens apenas enquanto consumidores ou empregados, a Indústria Cultural reduz a humanidade, em seu conjunto, assim como cada um de seus elementos, às condições que representam seus interesses".
É importante deixar claro que a massificação conquista o consumidor pela familiaridade, e não pelo gosto. Citando mais uma vez Adorno, no artigo 'O fetichismo na música e a regressão da audição', ele diz: "Se perguntarmos a alguém se 'gosta' de uma música de sucesso lançada no mercado, não conseguiríamos furtar-nos à suspeita de que o gostar e o não gostar já não correspondem ao estado real, ainda que a pessoa interrogada se exprima em termos de gostar e não gostar. Em vez do valor da própria coisa, o critério de julgamento é o fato de a canção de sucesso ser conhecida de todos; gostar de um disco de sucesso é quase exatamente o mesmo que reconhecê-lo."
Detalhe: esse texto é de 1938! E traduz exatamente uma coisa que acontece hoje: o ser mais desavisado ouve uma atrocidade no rádio, acha um lixo e ri. Mas, depois de uma semana, já está assoviando a melodia e até a introduçãozinha de teclado... Daí a comprar o disco é um passo! Não me canso de dizer: a cultura genuína não virá até você. O que chega fácil, fácil - os "mais vendidos", os "mais premiados", etc. - é exatamente o que querem que você consuma.
E depois do álbum do ano para Herbie Hancock quem será o próximo contemplado, Sonny Rollins? Ornette Coleman? Acho que não. Só se eles gravarem com alguém como Justin Timberlake ou Beyoncé. Aí sim, existiria um gancho para o prêmio, principalmente por não haver nada que contestasse o 'status quo', mas, sim, que só o valorizasse.
De minha parte, continuo achando graça de quem acredita na importância dessas premiações e, mais ainda, dos artistas que gravam discos com a quantidade mínima de músicas para poderem ser indicados ao Grammy (risos, risos e mais risos).
Fique esperto! Ou assista à próxima cerimônia de entrega...
Michel Leme
*agradecimento a Bruno Bacchi (Single Note Comunicação) pela correção gramatical e contra-argumentação.
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